ATÉ 96 – 01/12/1995

Escrever em tom choroso de despedida é meio brega. Esta é minha última coluna do ano, o primeiro do resto de nossas vidas, como se diz por aí. Em dezembro dou folga aos leitores, que não mais serão obrigados a topar com estes escritos uma vez por semana, pelo menos até janeiro, quando o teclado do meu computador será reativado. A maioria de vocês nunca tinha ouvido falar no meu nome até o início da temporada de Fórmula 1. De repente, caí de pára-quedas nas páginas de jornais do Brasil inteiro depois de um ano esquisito, o de 94. Não creio que minha história pessoal seja das mais interessantes, mas só para que se entenda, eu trabalhava num grande jornal de São Paulo até três dias depois da morte de Senna, em Imola. Pedi demissão pelo telefone, por motivos que não vêm ao caso agora. Foi o que me levou a montar a Warm Up, uma agência de notícias que distribui cobertura de corridas para os quatro cantos do país. Troquei de público, e isso foi o que mais me agradou em 95. Deixei de escrever para paulistanos metidos a besta (eu sou paulistano, mas já fui muito mais metido a besta do que hoje em dia) e passei a falar com gente de cidades distantes que, em sua maioria, não conheço. Gente muito mais simpática, receptiva e interessada do que se encontra por aqui. O Brasil é um país legal, desconhecido de quem vive em cidades grandes e fora de controle, como é São Paulo. Ao longo deste ano, recebi muitos exemplares dos jornais para quem escrevi. É encantador saber quem venceu o Miss Debutante em Lages, ou então que uma nova escola foi inaugurada em Porto Velho. Muito melhor do que conhecer os detalhes de um sequestrou ou da queda de um avião no meio de uma avenida às oito da manhã (é, isso aconteceu na semana passada). O que interessa para os malucos daqui não faz o menor sentido para quem tem uma vida de verdade no interior do Brasil, ou em capitais infinitamente menores e mais agradáveis, como Maceió, Natal ou João Pessoa. Desconfio, por exemplo, que nesses lugares a fusão do Nacional com o Unibanco tenha incitado muito menos discussões do que o aumento do preço da água de côco, ou então a festa de formatura da Fetiche Manequins em Poços de Caldas, dia desses. É verdadeiramente um outro universo, esse das coisas palpáveis, dos pequenos dramas do cotidiano, do vizinho que você sabe o nome, do baile esperado durante semanas. Aqui, nem corrida de Fórmula 1 chama mais a atenção. Lembro quando eu era pequenininho (ainda sou, mas estou falando de idade, não de tamanho), da cidade se preparando para o GP, o carro do Emerson exposto num hipermercado, novidade daqueles tempos, os pilotos falando línguas estrangeiras na TV, o locutor da rádio a madrugada inteira em Interlagos… Nada mais emociona uma cidade grande. O que eu escrevia no jornalzão daqui, muito menos. Estava embrulhando peixe no dia seguinte, eu costumava dizer. Agora, acho que é diferente. Talvez este jornal aqui esteja embrulhando peixe, amanhã. Ou então repouse sobre o balcão de um açougue perto de um coreto, ao lado da farmácia. Mas alguém já leu antes, e se sorriu, ou pensou em algo que escrevi, ou falou puxa, é verdade, pronto, sinto que fiz alguma coisa em 95. Até 96.

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