E O MEU TWINGO? – 21/06/1996

Eu sou meio metido e quando baixaram os preços dos carros importados, uns dois anos atrás, resolvi comprar um. Raspei o tacho, vendi um Voyage velho e deu para comprar um Renault Twingo vermelho desbotado. Na época, a moeda em vigor era a tal da URV, sigla que até hoje eu não sei direito o que quer dizer — portanto, não me perguntem quanto paguei, mas não foi muito.

É verdade que o motorzinho do meu carro não é propriamente o mesmo que vai na Williams e na Benetton, mas na minha mente de consumidor bobalhão era a mesma coisa, um Renault campeão do mundo. (Eu sou o sonho de todo publicitário. Qualquer propaganda bem feita me ilude. Vivo trocando de margarina e detergente, apesar de não comer margarina, nem lavar louça.)

Agora a Renault diz que vai sair da Fórmula 1. E o que que eu faço com meu Twingo? É algo que me preocupa desde já, embora ainda tenha um ano e meio pela frente para escolher meu novo carro. Mas digamos que, com a Renault de fora, a Ferrari seja a próxima campeã mundial. O que eu faço? Compro uma Ferrari? De que jeito? E se for a Mercedes, com a McLaren? Onde vou arrumar dinheiro para uma Mercedes, que não seja o ônibus que pego de vez em quando e custa oitenta centavos?

Pensei também na possibilidade de a Honda voltar aos seus bons tempos, mas nada mais desanimador para minha posição de comprador de carros campeões mundiais — o problema é que não gosto de carro japonês, que tem farol puxadinho. Sobraram Yamaha, que só faz moto, Ford, que é meia-boca, Hart, que não faz carro, e Peugeot.

Taí, vou começar a procurar um Peugeot. Mesmo sabendo que de vez em quando quebra a embreagem, o rádio não funciona, falta ar nas válvulas pneumáticas e o pessoal dos boxes não é lá muito confiável em pit stops. E como tenho tempo antes de a Renault picar a mula, vou ficar torcendo para que surja algum outro motor bom na F-1 que me convença a trocar de carro. Um Citroën, um Mini-Morris, coisas do tipo. Nada muito caro, mas confiável e vencedor. E a Renault, azar dela, já pode ir contabilizando o prejuízo. Quarta-feira, quando avisou que estava deixando a F-1, perdeu seu primeiro cliente. Eu, justo eu, usar carro que não ganha Campeonato Mundial? Nem morta, santa.

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