FÓRMULA BRASIL – 11/10/1995

No dia em que o Eddie Irvine assinou com a Ferrari vi, pela segunda vez em dois anos, meu emprego caminhar solenemente para o brejo. A primeira foi quando Senna morreu. Descontada a tristeza, que foi mesmo um negócio muito triste, o fim de Ayrton representou também uma tragédia para quem trabalhava com Fórmula 1 por aqui. Quem iria se interessar por corridas dali para a frente? Sobrevivi. A F-1 também. Sobrou um bom público no Brasil que aprendeu a gostar dos GPs depois de 20 anos de sucessos. Grande parte, mal-acostumada pelos pódios intermináveis, resolveu esquecer que um dia a F-1 existiu: aqueles que só torciam para os brasileiros, que faziam das manhãs de domingo um motivo para se orgulhar do país, de nossos rapazes, de nossas mulatas, de nossas praias. A F-1 sempre foi um depositário de esperanças de vitórias brasileiras. A gente morre de fome, mas ganha corrida. Não foi só o fim das vitórias que afastou muita gente da TV. A F-1 passou a ser uma lembrança dolorosa, algo a ser esquecido. Lembrar aquele primeiro de maio faz mal, essa é a verdade. Pois bem. Restou Rubens Barrichello. Algumas viúvas de Senna jogaram nas costas dele a responsabilidade de ressuscitar a F-1. O próprio Rubinho ajudou a criar tal expectativa. Fracassou, é claro. Barrichello não é Senna e sua equipe está longe de ser uma McLaren dos bons tempos. Na F-1 ninguém faz milagre, exceto Michael Schumacher em dias inspirados. No início desta temporada, Barrichello levou um couro de Irvine. Depois se recuperou e alimentou mais uma vez a expectativa de correr num time grande, de trazer de volta ao Brasil os bons momentos de um passado não muito distante. Não conseguiu. Pior: Irvine arranjou um lugar na Ferrari. Esse Rubinho não é de nada, disseram meus amigos quando cheguei de Nurburgring. Nessa equipe aí, agora é que a F-1 acabou mesmo para nós. Meu emprego se foi de novo. OK, agora é minha vez de falar. Esqueçam o Rubinho. Esqueçam o Senna, o Piquet, o Fittipaldi, o Diniz e o raio que o parta. A F-1 não é Fórmula Brasil. Esse público que só assiste corridas para ver vitórias brasileiras é dispensável. Obrigado, vá ver o Gugu no canal ao lado. Nenhum brasileiro vai ganhar um GP nos próximos dois anos. Os tempos são outros, os pilotos também. As pessoas por aqui precisam aprender a gostar de um esporte sem transformar em desgraça a ausência de vitórias. Temo pelo vôlei, quando a seleção parar de ganhar. O basquete nacional já se afundou diante da concorrência da NBA. Tirando o futebol, que permite escolher um time vitorioso para torcer, o resto é desprezado. Que diabo de público é esse que nós temos? O Mundial de F-1 do ano que vem vai ser espetacular. Mas é Mundial, não Brasileiro de F-1. Quem quiser que assista. Quem quiser torcer pro Rubinho, escolha outra coisa para fazer. Veja a Indy, por exemplo. Lá tem sete brasileiros, alguns com chances de vencer. Ou jiu-jitsu, parece que tem uns brazucas bons nisso também. Soube que na aeróbica uma menina daqui ganhou um Mundial outro dia, bárbaro, muito bacana mesmo. E esqueçam a F-1, me deixem em paz e vão plantar batatas.

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One thought on “FÓRMULA BRASIL – 11/10/1995

  1. Profético! Saiba que aqui no futuro tudo continua igual… E a temporada de 96 vai ser uma merda. Desculpe, mas precisava dizer. De qq forma as coisas melhorarao depois.

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