O OBSERVADOR NO BARRANCO – 11/08/1995

O OBSERVADOR NO BARRANCO
Tem um barranco aqui em Hungaroring que separa a área dos boxes do paddock, onde ficam estacionados os ônibus das equipes. É no paddock que tudo acontece, os contratos são discutidos, as pessoas se encontram, o futuro se resolve. Fazia um calor dos diabos ontem em Budapeste e eu estava meio indisposto, depois de uma noite mal-dormida. Era de se esperar. Me entupi de caviar com torradas no jantar e suponho que depois da queda do Muro de Berlim o caviar russo que se comia no Leste Europeu deixou de ser russo. A vodca também. Aliás, não gosto de caviar, uma espécie de geléia de peixe sem gosto. Mas aqui na Hungria já virou tradição, vou sempre ao mesmo restaurante, mas nada disso importa. Só falei do caviar porque foi ele quem me levou a sentar no barranco alguns minutos depois do treino, para um justo relax antes de começar a escrever. Além do mais, precisava colocar as idéias em ordem. Com tanto diz-que-diz no bendito mercado de pilotos, a maior dificuldade da imprensa especializada neste fim de semana está sendo montar o quebra-cabeças para 96. A F-1 é engraçada. Metade do ano é gasta com a cobertura das corridas, quem anda mais, os melhores carros, esse tipo de coisa. A outra metade passamos especulando com o futuro, tentando adivinhar quem vai para onde. E, de repente, do meu privilegiado posto de observação do barranco, vejo Jean Todt, diretor da Ferrari, conversando com Flavio Briatore, seu equivalente na Benetton. Bingo! Schumacher está mesmo na Ferrari! Todt chamou Briatore para perguntar o número da sapatilha do alemão, o tamanho de seu macacão e se ele gosta de spaghetti a carbonara. Já ia me levantar para enviar a notícia ao mundo, quando Biratore sai e chega Geraldo Rodrigues, empresário de Rubens Barrichello, com um boné da Ferrari, para falar com… Jean Todt! Rubinho na Ferrari! Então é isso! Sentei de novo no barranco. Nesse mato tem coelho, pensei. Rabisquei a equação, com Schumacher e Barrichello na Ferrari. Então o Alesi vai para a Benetton, claro. Divagava com essa possibilidade quando, ao virar para a esquerda vejo Briatore com… Damon Hill! Hill na Benetton? Claro, Hill na Benetton! Só pode ser isso. Ergui-me resoluto. Já sei de tudo. Hill sai da Williams, que pega o motor Ford e leva de troco o Frentzen. Tirei a poeira da bermuda e dei uma última olhada para o paddock. Infeliz idéia. Vejo Frank Williams conversando animandamente com Bernard Dudot, diretor da Renault. Hipótese desmontada, a da Ford. A Renault fica na Williams, porque o Schumacher sai da Benetton, óbvio. Como não pensei nisso antes?, censuro-me. Aí passa o Frentzen nas minhas barbas. Ao lado de quem? Jo Ramirez, chefe de equipe da McLaren. Mas não era a Williams? Desisti de entender o mercado. Mais ainda quando, decidido a abandonar o barranco, ainda tive tempo de ver Briatore recebendo Alesi, que vinha do hospital depois de bater forte no treino. Tá doendo alguma coisa? Dá pra correr?, perguntou. Resolvi ir embora. Mas ao me dirigir para a escada que leva à sala de imprensa esbarrei num sujeito baixinho, de óculos enormes. Bernie Ecclestone! Ele estava lá o tempo todo, no mesmo barranco, vendo tudo e se divertindo com os personagens de seu milionário teatro.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s