SCHUMACHO – 06/10/1995

Uma das vantagens de se chamar Michael Schumacher é ter um sobrenome que permite alguns trocadilhos. Nada muito brilhante, mas como o alemão tem o estranho hábito de ganhar muitas corridas, quebra-se o galho da famosa primeira frase de um texto, aquela que sempre demora mais a sair. Dizer Schumacher vence mais uma deixou de ser novidade na segunda vitória. Por isso, outro dia, tive a genial idéia de chamá-lo de Showmacher, depois do GP da Bélgica. Mais ou menos genial, eu diria, porque me pareceu meio óbvia. Hoje resolvi escrever sobre a coragem do Schumacher em aceitar correr na Ferrari. Pensava cá com os botões da minha calça Levis que o cara foi muito macho. Pronto. Saiu o título, Schumacho. Às vezes eu acho que mereceria o Pulitzer por certas idéias. Se vivesse nos Estados Unidos, certamente seria milionário. E foi macho, mesmo. É verdade que vai embolsar uma fortuna que transforma qualquer um em Indiana Jones, mas Schumacher não precisava arriscar tanto assim a sua reputação. Se ficasse na Benetton mais um tempo, era certeza de títulos fáceis. Afinal, teria a garantia do melhor motor do mundo, o V10 da Renault, a retaguarda do esperto Flavio Briatore e a dedicação exclusiva de uma equipe que aprendeu a ser grande. Schumacher, como disse outro dia um amigo meu numa conversa de bar, faz xixi de porta aberta na Benetton. Meio chulo, concordo, mas é isso mesmo. Lá ele manda e desmanda. Já na Ferrari as coisas serão bem diferentes. Primeiro, Schumacher não tem a menor indicação sobre o potencial do carro que vai dirigir. Senna, durante muitos anos, recusou as ofertas de Maranello porque sabia a choldra que teria nas mãos. (Não precisa nem olhar no dicionário que eu já olhei. Choldra é coisa imprestável. Está perto de chulo, que eu fui procurar porque tinha dúvidas sobre a grafia. Consultar dicionários é algo bem proveitoso. Jamais saberia o que é choldra se não fosse procurar o chulo.) Schumacher conhece a choldra e aceitou mesmo assim. Aos 26 anos de idade, deu para encarar desafios. Sabe que é muito melhor do que todo mundo, mas que só vai entrar para a história, mesmo, se ganhar um campeonato na choldra vermelha. Isso sob o risco de afundar na crise eterna da Ferrari. Precisa ser macho. Mais ainda porque o motor que a equipe está fazendo para o ano que vem, um V10 novinho em folha, saído do zero, parece que é uma grande choldra, de verdade. Correr numa equipe em permanente ebulição, pressionado pela imprensa, visto com desconfiança pela torcida ao lado um candidato natural a ídolo, Eddie Irvine, e assumir a responsabilidade de encerrar um jejum de 16 anos sem títulos num carro incerto com motor duvidoso não é para qualquer um. Mas Schumacher não é qualquer um. Provou isso em Nurburgring, numa das corridas mais maravilhosas dos últimos anos. Se tomar um tombo no ano que vem, vai ser uma pena. Cabra macho como Schumacher merece vencer. Podem me xingar, mas ele fez o que o Senna não teve coragem de fazer. Falo sobre o peito de colocar a prêmio uma imagem arduamente construída ao longo de anos. Ayrton nunca correu esse risco. Schumi está correndo. Como disse Damon Hill domingo passado, tiremos o chapéu para esse rapaz.

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