TRANSPORTE COMUNITÁRIO – 01/09/1995

Uma experiência interessante aconteceu nestes dias aqui em São Paulo. Por causa da fumaceira e do trânsito enlouquecedor, resolveram que uma vez por semana deveríamos deixar nossos carros em casa. Foi criado um sistema funcional: placas com finais 1 e 2 não circulariam na segunda-feira; 3 e 4 ficariam na garagem na terça, 5 e 6 na quarta, e por aí vai. Como bom cidadão que sou, larguei meu Karmann-Ghia parado anteontem e fui trabalhar de ônibus. É algo que gosto de fazer. O carro, numa cidade enorme como esta, é um elemento desagregador e individualizante. A gente sai do elevador, entra na garagem, liga o carro e só sai dele na garagem do prédio onde trabalha. Muito social. No transporte público, ao contrário, convive-se com as pessoas. Quem pega sempre o mesmo ônibus diz bom dia ao motorista, conhece o cobrador pelo nome (no Rio é trocador, mas é a mesma coisa; em São Paulo, o cara cobra a passagem; no Rio, dá o troco; o que não engulo em carioca é chamar funileiro de lanterneiro, mas isso é papo para outro dia). Tem mais um monte de vantagens. Por exemplo, tomar um café na padaria. Quem sai de carro de casa jamais pára na padaria. Mas quando se desce do bumba, sempre há uma padaria em frente ao ponto. Poderia falar também dos flertes com as mocinhas que vão ou vêm da escola, mas aí causaria um problema em casa que não estou disposto a enfrentar em nome da defesa do transporte público. Tudo isso estive pensando enquanto chacoalhava no banco duro do Sacomã, o ônibus que peguei anteontem. Outra vantagem: a gente tem tempo para pensar num ônibus, o que não acontece dentro de um carro. Ao volante, a preocupação é xingar o motorista do ônibus – com quem me solidarizo sempre que estou dentro de um. Mas dizia que pensava nessas coisas e me ocorreu uma idéia: fazer o mesmo na F-1. Vou mandar a proposta à FIA. Ela consiste em estimular o transporte comunitário nas corridas. Em vez de monopostos, os carros passam a ter dois lugares e cada metade leva as cores de uma equipe. Isso faria dos pilotos seres mais sociáveis, obrigando-os a conviver com seus colegas de profissão. O critério seria muito simples: usar o final do número para formar pares. Schumacher, por exemplo, faria dupla com Pedro Paulo Diniz – o nº 1 e o nº 21. Cada um dirige uma parte da corrida, com o outro ao lado dando conselhos. Imagino a cena: Calma, Schumy, vai devagar!, diria Diniz na vez do alemão. Posições trocadas, Schumacher ordenaria: Vai, passa, passa!, ao que Pedro Paulo responderia: Não posso, nunca fiz isso na minha vida. Outra dupla curiosa seria formada por Katayama, o 3, e Pedro Lamy, o 23. Um japonês e um português. Ó pá, sai da grama, faiz favore, pediria Lamy. Katayama, gentil, responderia que aquilo não era grama, mas sim caixa de brita. Hill, o 5, seria o companheiro de Irvine, o 15. Acelera!, grita Irvine. Onde fica o acelerador?, responde Damon. No troca-troca, Hill implora: Breca! E Eddie: Onde fica o breque? Coulthard, o 6, não conseguiria largar porque não encontraria o parceiro Giovanni Lavaggi, 16. Quem é Lavaggi?, perguntaria David ao pessoal da Arrows. Sei lá, responderia o chefe de equipe do italiano. Por coincidência de alguns algarismos, certas duplas seriam sorteadas. Barrichello cairia com Alesi. Dois jovens e bravos pilotos. Mas não chegariam ao fim das corridas. Ao primeiro problema de câmbio, Jean começaria a chorar. Rubinho, na sua metade do carro, pediria conselhos ao pai. Mas como seu rádio nunca funciona, começaria a chorar também. As lágrimas ivadiriam o motor, que igualmente quebraria. E os dois abandonariam na segunda volta, cada um com suas razões, mas pelo menos podendo dizer: É verdade, pergunta pro Alesi!

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