LIÇÕES DO INVERNO – 13/02/1998

Eu bem que disse, a McLaren vai arrebentar a boca do balão este ano. O carro novo foi para a pista pela primeira vez nesta semana e já enquadrou o resto da turma. A expectativa era tão grande que a Ferrari e a Williams preferiram evitar o confronto direto. Foram fazer testes privados.

Há uma certa lógica em indicar a Mclaren como favorita ao título, embora a lógica vá para o brejo na primeira batida do Coulthard ou do Hakkinen. A equipe tem o melhor projetista, um motor que é um canhão e escolheu os melhores pneus. Em tese, não há como perder.

Mas é só em tese. A dupla de pilotos não é lá essas coisas. Não se pode comparar nenhum dos dois com Schumacher ou Villeneuve e piloto ainda conta, e muito, na F-1.

E vai contar mais ainda este ano, com os novos pneus que parecem brincadeira de criança. Ninguém gostou. Os carros se transformaram em karts que precisam ser guiados de lado nas curvas. “Tirou o prazer de dirigir”, reclamou pedro Paulo Diniz, da Arrows. “Ficaram perigosos”, emendou Villeneuve.

De qualquer forma, os testes de inverno da pré-temporada devem servir para indicar alguma coisa. A McLaren será forte, a Williams também, a Ferrari corre o risco de quebrar muito, a Jordan fez um carro que é uma porcaria e a Prost ainda está devendo.

Surpresa, mesmo, é a Tyrrell. Em seu último ano de vida, fez um carrinho honesto que é rápido mesmo com um japonês ao volante. Legal que seja assim. Há mais de 20 anos a Tyrrell vem se arrastando pelas pistas, vivendo do passado, de Jackie Stewart, das seis rodas, das histórias do velho Ken Tyrrell. No ano que vem o nome desaparece da F-1. Que faça isso com um mínimo de dignidade.

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A VIDA EM COR-DE-ROSA – 06/02/1998

Ah, a vida é linda e maravilhosa! Aqui no parque de diversões do Mickey, todos os carros são muito bons e o mínimo que cada um de nós, pilotos, promete ao seu público e, principalmente, aos seus patrocinadores, é a luta direta pelo título.

Ah, este carro da Penske é o melhor que já foi feito em toda a história dos veículos de quatro rodas! Ah, estes pneus Goodyear melhoraram muito, o pessoal tem trabalhado barbaridade! Puxa, como é bom esse chassi Reynard, nunca dirigi um carro tão bom! Nossa, como o Swift é rápido em ovais longos, eficiente em ovais curtos e equilibrados em circuitos mistos! Anda muito bem em ruas de paralelepípedo também!

Olha, o motor Mercedes deste ano vai dar o que falar, pode escrever aí. A Honda, mais uma vez, mostrou o que os japoneses são capazes de fazer. A Ford não está disposta a ficar atrás, não, fez o motor mais confiável da categoria.

Ah, como ficou lindo o novo desenho de Homestead, puxa, como é bonito aquele oval no Japão, ah, como eu adoro Milwaukee e Mid-Ohio, Nazareth é inesquecível!

Veja este macacão, este capacete, este asfalto, estas arquibancadas, vamos fazer o dever de casa direitinho, nunca testamos tanto, quebramos recordes e mais recordes no circuito auxiliar B de Firebird, fomos meio segundo mais rápidos que os outros no retão Y de Cleveland, nosso pacote técnico é excelente, são dez ou vinte ou cinquenta pilotos com chances de ser campeão!

Este é o mundo da Indy, o mundo no qual aquele piloto que fica em décimo-alguma-coisa num treino garante que tem chances de ganhar a corrida, o mundo onde tudo é cor-de-rosa, sorrisos, confiança. Para mim, um grande embuste.

Será que nunca essa turma vai assumir com honestidade que tem um carro ruim, uma equipe pobre, um motor de quinta e um pneu quadrado? Será que todos são favoritos até a última prova da temporada? Será que Milwaukee é mesmo melhor do que Mônaco e Portland dá de dez a zero em Monza?

Fico com o mau-humor da F-1, o Schumacher reclamando da Ferrari, o Villeneuve esculhambando o regulamento, o Alesi espinafrando a Benetton e o Ron Dennis empinando o nariz para dizer que não, não somos favoritos.

É meio cinzento, mas mais verdadeiro.

CAMPEÕES DE TESTES! – 30/01/1998

Não adianta, meninos. A nós, brasileiros, agora resta torcer em testes. Ninguém mais precisa ficar acompanhando corrida na TV, não tem mais que acordar cedo para ver o Rubinho quebrar, não é mais necessário colocar o boné do Banco Nacional para fingir que o Senna ainda está lá.

Agora o nosso negócio é nos autódromos vazios, com um cronômetro na mão e um olho nos rivais para, no fim do dia, uma terça ou quarta-feira qualquer, alardear orgulhoso, brandindo uma papeleta: “O Zonta é mais rápido que o De La Rosa! O Max anda mais que o Jorg Müller!”

Já que não tem vaga mesmo para correr em equipe grande, o negócio foi aceitar ser piloto de testes. Pelo menos estão em equipes grandes, o Zonta na McLaren, o Max na Williams.

Você, que gosta de competição, pode até montar um campeonato paralelo, marcando pontos nos testes privados. Um deles será o campeão. Os adversários não são lá grande coisa. O tal do Müller na Sauber, o Nick Heidfeld na McLaren, o Juan-Pablo Montoya na Williams, o Luca Badoer na Ferrari, tudo zé-mané.
Pense no lado bom. Não tem aquele stress de pit stop, dá para ir dormir tarde aos sábados sem medo de perder a corrida na manhã seguinte, quando o carro quebra a equipe troca o motor, se bater pode pegar outro nos boxes…

E assim começamos 98, nosso quinto ano de jejum. Desde 7 de novembro de 93 que o Brasil não comemora uma vitória na F-1 e agora não será diferente. Mas fique ligado no noticiário. Lá pelo meio do ano vai aparecer no jornal que o Zonta foi o mais rápido nos testes de Barcelona e o Max ficou com o segundo tempo. Marque dez pontos para um e seis para o outro e no fim da temporada você terá seu campeão mundial num pódio imaginário ouvindo o Hino Nacional.

Não é grande coisa, mas para quem se esforça torcendo para o Rubinho, está bom demais.

PREVISÃO – 26/12/1997

Anote aí as minhas previsões para 98, porque não estou com vontade de fazer balanço da temporada, quem faz balanço é banco. Eu normalmente acerto todas, minha margem de erro nos últimos campeonatos tem sido menor do que 2%. E um ótimo ano a todos vocês que tiveram a paciência de me aturar em 97.
Volto em fevereiro, bronzeado pelo sol de Porto Seguro e louco para ver uma corridinha de novo. Tchau.

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Schumacher e Villeneuve vão se reconciliar. Para provar que está sendo sincero, Michael vai pintar o cabelo de amarelo. Jacques, por sua vez, doará um filhote de vira-lata para o alemão. Mas não vai avisar que está cheio de pulgas.

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Rubinho vai reclamar do motor, do pneu, do asfalto, do calor e do hotel. Vai prometer largar entre os oito primeiros e tentar chegar nos pontos. Vai lamentar o azar que o tirou do pódio e, no fim da temporada, dirá que foi um ano de aprendizado e que a equipe cresceu muito.

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Raul Boesel, finalmente, conseguirá sua primeira vitória. Será num campeonato de autorama com os filhos pequenos. Mas o mais velho entrará com um protesto junto à FIA porque o carrinho do papai tinha quatro rodas e o seu, só três.

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Gil de Ferran vai bater o carro oito vezes e no final do ano dirá que se não fossem aqueles azares, seria campeão.

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A FIA vai mudar de novo o regulamento, porque os carros estão muito rápidos. Só serão permitidos freios a lona e câmbios manuais de quatro marchas. Os carros também terão que levar estepe no porta-malas e o pit stop será feito pelo piloto sozinho.

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O Galvão Bueno vai dizer “quando surgir a luz verde” três vezes. E vai chamar Jacques de Gilles 14 vezes.

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André Ribeiro terá que fazer uma plástica para tirar o sorriso do rosto, porque se já dá risada sem ganhar nada, imagine na Penske, faturando uma corrida aqui e outra ali.

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E eu serei pai.

Até o ano que vem.

AVISA QUE EU TÔ VOLTANDO! – 19/12/1997

Quando cheguei ao meu escritório terça-feira passada, lá pelas onze da manhã, já havia um recado na secretária eletrônica. Era do Zé, velho amigo, meu sucessor na cobertura da Fórmula 1 na “Folha de S.Paulo”. Dá uma ligada, tô precisando de uns detalhes, dizia a mensagem.

Demorei alguns segundos para entender do que se tratava, até lembrar que terça-feira, dia 16, era o dia do veredito de Imola. No fax já estava dependurado um comunicado da FIA e um press-release da Williams. Àquela altura, o juiz já havia inocentado todo mundo, colocando um ponto final em uma história que também é minha.

Foram 1.325 dias desde 1º de maio de 94. Ao ouvir a voz do Zé, eu sorri. Confesso que nenhuma emoção especial me inundou, o que até me deixa preocupado. Liguei, ele atendeu, passei algumas informações, datas, horários, detalhes que vieram surgindo aos poucos. No final do telefonema, brinquei. Avisa aí que eu tô voltando, mas acho que vou tirar uma folga até a semana que vem.

Só ele e eu, talvez, entenderíamos a brincadeira. O Zé riu e disse, pode deixar, eu aviso.
No dia 3 de maio de 94 esse capítulo da minha vida pessoal, que não sei se interessa a alguém, começou com um telefonema internacional a partir de Bolonha. Foi quando me demiti da “Folha”, depois de uma discussão áspera com alguém que havia decidido por minha permanência na Itália “até acabar o inquérito”. É claro que eu não fiquei. Eu tinha oito anos de jornal.

Avisa aí que eu tô voltando, Zé. Acabou.

Minha vida mudou muito nesses mais de três anos. Comecei a trabalhar em rádio, montei uma agência de notícias, insisti na F-1, passei a escrever para outra gente, gente do Brasil todo, jornais menores, lugares distantes, cidades que não conheço.

Continuei viajando, fiz novos amigos, aprendi a falar num microfone, virei âncora de um jornal diário, troquei de carro, mudei de apartamento, recebi convites para trabalhar na TV, toquei o barco, enfim.

Terça-feira, o juiz concluiu que ninguém foi culpado. Talvez ele pudesse incluir meu nome na sua absolvição universal. Minha culpa, naquele dia 3 de maio, foi querer voltar para o Brasil para trabalhar no enterro de um cara que eu vi morrer.

Se tivesse ficado na Itália como me mandaram, estaria voltando agora, 1.325 dias depois. Chegaria com um certo sotaque, talvez, ou quem sabe mais magro, com roupas diferentes, rosto diferente, alma diferente.

Ou talvez nem voltasse. Olha, acabou, mas vou ficar por aqui, diria.

Mas eu voltei três anos e meio atrás, a tempo de mudar minha vida, de ver a Portuguesa numa final de campeonato, de recomeçar do zero. Agora parece que esse capítulo acabou de vez. Que venham outros, mais felizes. Porque ninguém teve culpa, nem eu.

CAMARADA MAO – 12/12/1997

Camarada Mao,

Ainda bem que o senhor já se foi. Seria um golpe duro demais, talvez, receber a notícia que chegou hoje do Comitê Central. Um de nossos camaradas, vestido com um terno Giorgio Armani, apareceu na televisão e anunciou que teremos uma corrida de Fórmula 1 aqui. E falando inglês!

Ele estava em Mônaco, tomando champanhe, numa afronta aos nossos princípios, em meio a burgueses sorridentes de smoking e relógios Rolex. Nada de túnica, nem sapatos feitos aqui mesmo, na periferia de Pequim. Os tempos mudaram, camarada Mao. Antigamente, iria para o pelotão de fuzilamento. Mas será recebido com festa.

E o pior o senhor não sabe. Camarada Fidel me telefonou na semana passada. Entre uma baforada e outra, às gargalhadas, disse que vai fazer uma corrida também em Havana!

O que estão pretendendo? Um campeonato comunista? Como? Não há mais países em número suficiente! Não, camarada, não podemos aceitar essas máquinas capitalistas, caríssimas, rodando pela Praça da Paz Celestial. É tudo culpa do Xiaoping, aquele velhaco traíra que deixou venderem Coca-Cola em Shangai!
Mudou tudo, camarada Mao. Ontem mesmo até eu cometi um pecado imperdoável e comi um Big Mac. É horrível, mas eu aproveitei a promoção número 1, que dá batatas fritas de graça. Sabe como é, a crise, a bolsa…

Mas parece que não tem mais volta, mesmo. Se os portugueses não arrumarem o autódromo deles, a turma virá correr aqui. Nossos operários e camponeses serão bombardeados pela propaganda consumista e descarada do Ocidente.

Se me permite, gostaria de submeter a sua sabedoria uma sugestão. Vamos proibir a entrada dos carros. Só correm aqueles feitos na China. Os pilotos podem vir, mas deverão vestir nossas túnicas e defender publicamente nossas causas. Nada de CNN, nem BBC. Faremos a transmissão pela TV, também. Mostramos a largada, depois colocamos no ar um documentário sobre os últimos resultados da nossa agricultura, algum discurso seu gravado e, depois, mostramos a chegada.

Vou levar a idéia ao Comitê. Se eles não toparem, peço demissão e me mudo para, para…. para onde? Albânia? Também acabou. Acho que vou pedir transferência de planeta.

O BAR DA F-1 – 05/12/1997

Arrumaram uma equipe que se chama BAR. Isso mesmo: BAR. Parece que chegaram a pensar em Boteco Racing, até mesmo em Pub’s Team, mas acabaram escolhendo BAR, um nome mais universal e explícito, que dispensa maiores explicações.

Finalmente teremos um bar na Fórmula 1. Estava precisando, porque não há nada melhor do que um happy hour no fim do expediente, mesmo que seja num autódromo. Nada de motorhomes falsamente luxuosos, nem mesinhas de plástico e assessores de imprensa com seus sorrisos robotizados. Já estou imaginando o ônibus da BAR em 99: um enorme balcão de madeira, banquetas altas, o ar esfumaçado, lusco-fusco, música dos Cranberries, bons uísques, gim tônica, coquetéis, um barman competente, margueritas e, por que não?, caipirinhas. Andam falando até em ventilador no teto e um pianinho de vez em quando para relaxar. Play it again, Sam.

Nada daquele ambiente asséptico, geladeiras com nomes de patrocinadores, garrafas de água mineral, vinho branco fajuto. Poderemos fumar à vontade e paquerar as meninas solitárias de fim de noite. Quem sabe escolher um som na juke-box, pendurar a conta, pedir um Jack Daniel’s duplo, curtir uma fossa, marcar encontros clandestinos numa mesa de canto.

É o mínimo que espero da BAR, ou British American Racing, sucessora da Tyrrell. Um dos donos, Craig Pollock, empresário do Villeneuve, prometeu que será uma equipe diferente, divertida, fora dos padrões estabelecidos na F-1.

O Villeneuve, aliás, deve correr lá em 99. É uma ótima notícia, porque Jacques é um excelente companheiro de copo, toma cerveja e saquê. Creio que o Irvine também será um frequentador assíduo, ele que é chegado numa guiness, e o Frentzen também.

Teremos uma relação mais humana com os pilotos, porque num bar, como se sabe, tudo se revela. Traições, novos amores, paixões devastadoras, nada escapa a um trago. Espero que o Pollock cumpra sua promessa. A F-1 não precisa de competição, duelos, ultrapassagens, isso tudo é besteira. Precisa, mesmo, de diversão e boas histórias. Aquelas que só surgem num bar.