AVISA QUE EU TÔ VOLTANDO! – 19/12/1997

Quando cheguei ao meu escritório terça-feira passada, lá pelas onze da manhã, já havia um recado na secretária eletrônica. Era do Zé, velho amigo, meu sucessor na cobertura da Fórmula 1 na “Folha de S.Paulo”. Dá uma ligada, tô precisando de uns detalhes, dizia a mensagem.

Demorei alguns segundos para entender do que se tratava, até lembrar que terça-feira, dia 16, era o dia do veredito de Imola. No fax já estava dependurado um comunicado da FIA e um press-release da Williams. Àquela altura, o juiz já havia inocentado todo mundo, colocando um ponto final em uma história que também é minha.

Foram 1.325 dias desde 1º de maio de 94. Ao ouvir a voz do Zé, eu sorri. Confesso que nenhuma emoção especial me inundou, o que até me deixa preocupado. Liguei, ele atendeu, passei algumas informações, datas, horários, detalhes que vieram surgindo aos poucos. No final do telefonema, brinquei. Avisa aí que eu tô voltando, mas acho que vou tirar uma folga até a semana que vem.

Só ele e eu, talvez, entenderíamos a brincadeira. O Zé riu e disse, pode deixar, eu aviso.
No dia 3 de maio de 94 esse capítulo da minha vida pessoal, que não sei se interessa a alguém, começou com um telefonema internacional a partir de Bolonha. Foi quando me demiti da “Folha”, depois de uma discussão áspera com alguém que havia decidido por minha permanência na Itália “até acabar o inquérito”. É claro que eu não fiquei. Eu tinha oito anos de jornal.

Avisa aí que eu tô voltando, Zé. Acabou.

Minha vida mudou muito nesses mais de três anos. Comecei a trabalhar em rádio, montei uma agência de notícias, insisti na F-1, passei a escrever para outra gente, gente do Brasil todo, jornais menores, lugares distantes, cidades que não conheço.

Continuei viajando, fiz novos amigos, aprendi a falar num microfone, virei âncora de um jornal diário, troquei de carro, mudei de apartamento, recebi convites para trabalhar na TV, toquei o barco, enfim.

Terça-feira, o juiz concluiu que ninguém foi culpado. Talvez ele pudesse incluir meu nome na sua absolvição universal. Minha culpa, naquele dia 3 de maio, foi querer voltar para o Brasil para trabalhar no enterro de um cara que eu vi morrer.

Se tivesse ficado na Itália como me mandaram, estaria voltando agora, 1.325 dias depois. Chegaria com um certo sotaque, talvez, ou quem sabe mais magro, com roupas diferentes, rosto diferente, alma diferente.

Ou talvez nem voltasse. Olha, acabou, mas vou ficar por aqui, diria.

Mas eu voltei três anos e meio atrás, a tempo de mudar minha vida, de ver a Portuguesa numa final de campeonato, de recomeçar do zero. Agora parece que esse capítulo acabou de vez. Que venham outros, mais felizes. Porque ninguém teve culpa, nem eu.

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