AS CARAS NOVAS – 13/11/1998

Não tenho o hábito de ficar fazendo previsões sobre o futuro dos pilotos brasileiros que aparecem com destaque nas categorias menores. Eles surgem aos borbotões, todos os anos, desde que me conheço por gente. A imensa maioria, senão todos, fica pelo meio do caminho. Traduzindo, para quem não gosta de meias-palavras: fracassa onde realmente importa, na F-1 e na Indy, para não ser muito rigoroso.

A lista é gorda. Christian, Moreno, Gugelmin, Serra, Negri, Gil, Barrichello, Rosset, Gualter, só para ficar nos que me vieram à cabeça nos últimos dez segundos. Nenhum desses, por razões que vão desde a incapacidade propriamente dita até o azar de escolher sempre a equipe errada na hora errada, vingou. E sofrem cobranças indevidas por conta de um passado do automobilismo brasileiro que não lhes pertence mas que, quando a conveniência recomenda – na hora de descolar um patrocínio, por exemplo -, é prontamente incorporado aos seus currículos.

Na verdade, o Brasil não é esse espanto todo na formação de pilotos. Essa história de celeiro de talentos é pura cascata nacionalista. A rigor, o país teve três caras excepcionais e um que não teve tempo de chegar lá porque morreu num acidente de avião. Nem precisa, mas se vocês querem os nomes, são os de sempre: Emerson, Nelson e Ayrton, os três ons, e o Pace.

O resto é mais ou menos parecido com o que sai das fornadas inglesas, alemãs, italianas, francesas, americanas, argentinas, australianas, belgas, holandesas e canadenses. O diferencial, muitas vezes, que resulta num título ou numa boa fase de vitórias, é a tal da oportunidade, da sorte, da competência para achar um cockpit razoável para sentar e mostrar serviço.

Vem aí uma nova geração para as viúvas do Tema da Vitória depositarem suas esperanças. Haberfeld, Bernoldi, Burti, Zonta, Pizzonia, Kanaan, Da Matta e Wilson são os que estão em maior evidência. Ganharam, ou quase, campeonatos aqui e acolá na F-3, na Indy Lights, na Vauxhall, na F-3000 e por aí afora. Um ou outro pode acabar vingando. A maioria, que ninguém se iluda, vai sucumbir.

Os brasileiros não possuem o monopólio das vitórias no exterior, apesar das mais de 100 neste ano, sem dúvida uma marca expressiva, mas que está longe de representar uma garantia de dias gloriosos pela frente. Há outros tantos de vários países que também conquistaram títulos e ganharam corridas, e nem por isso são considerados fenômenos de pilotagem.

Por hora, é bom ficar de olho no Zonta e no Kanaan. É um bom começo, são dois exemplares bem-acabados de uma nova geração profissionalizada e concentrada em encontrar caminhos pouco duvidosos. Os demais têm os anos pela frente para provar que estou errado e que esta é mesmo a pátria sobre rodas, como já se chegou a dizer. E enquanto isso não acontece, sejamos sensatos e continuemos admirando Schumacher, Hakkinen e Zanardi, rapazes que não falam uma palavra sequer em português.

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