AS TARTARUGAS DA ÍNDIA – 24/12/1998

Não há muito o que comemorar numa virada de ano, exceto a esperança de que as coisas vão melhorar. O que é de uma enorme ingenuidade, já que nada indica que a passagem de um ano para outro seja capaz de mudar essencialmente alguma coisa, a própria contagem dos anos já é algo arbitrário e fictício, estamos em 1998, como poderíamos estar em 10 bilhões e 245 milhões, dependendo da data inicial escolhida, do marco zero da história do universo e da humanidade, algo jamais precisado por cientista nenhum.

Olhando para trás, 1998 não deve deixar muitas saudades. O mundo continua miserável e violento, cidades foram bombardeadas sem mais nem menos, furacões devastaram países pobres e infelizes, tragédias de todos os tipos se abateram sobre este planeta imperfeito e cruel.

Ontem à noite eu assistia a um documentário sobre tartaruguinhas da costa da Índia, foi a única alternativa televisiva a um programa abominável da Xuxa. Elas nascem dos ovos enterrados na praia por suas mães, que voltam ao mar para nadar e comer até morrer um dia, e nunca conhecem seus filhotes. Estes nascem e se arrastam pela areia até a água, em sua primeira grande travessia, apenas alguns metros que representam a fronteira entre a vida e a morte.

Chegar ao mar é a vida, sucumbir ao cansaço na areia é a morte. Milhares de tartaruguinhas, num espetáculo monumental, rumam para o oceano, sem medo do desconhecido, em silêncio, sem testemunhas. A visão de sua batalha precoce e vital me convence que a vida, seja ela de uma tartaruga, de um antílope ou de um presidente da república, tem exatamente o mesmo valor. Nós, presunçosos que somos, é que atribuímos pesos aqui e ali.

Assim, morrerem centenas de iraquianos em Bagdá não nos diz respeito, mas se for um cantor sertanejo queimado numa BMW, derretemo-nos em lágrimas. Dezenas de retirantes despencando para a morte num precipício no sertão da Paraíba viram apenas estatística do DNER, um empresário assassinado numa esquina em São Paulo vai para a capa das revistas.

É um mundo injusto e desigual, o nosso. Por isso não há muito o que festejar na passagem de 1998 para 1999, ou para 2000, ou para 2001. Melhor seríamos se pensássemos e nos comportássemos como as tartarugas. Elas se arrastam pela areia para viver sem precisar matar ninguém. Não há competição contra seu semelhante, apenas a luta pelo direito de nadar e comer e morrer um dia.

E a troco de quê, cara-pálida, caro colunista de Fórmula 1, você está dizendo essas coisas? A troco de nada, nada há a dizer sobre Fórmula 1 entre o Natal e o ano-novo, e a gente diz mesmo um monte de besteiras nesta época do ano. Decidiu-se que uma vez a cada 12 meses devemos parar para pensar, refletir, essas coisas.

Alguns, como eu, pensam e refletem sobre tartarugas da Índia.

Feliz 1999.

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