GENTLEMEN, START YOUR ENGINES! – 04/12/1998

Pouco mais de seis anos atrás, cheguei ao controle de passaportes no aeroporto de Nova York com a cara amassada de tanto avião. Eu estava vindo da Itália, via São Paulo, e pisava em solo americano pela primeira vez. Os Estados Unidos nunca me atraíram, mas apesar disso eu estava animado com a pauta dos dias seguintes: cobrir as 500 Milhas de Indianápolis.

O meu visto de entrada, na época apenas um carimbo, estava incompleto. O funcionário do consulado esqueceu de escrever uma letra qualquer, B1, C5 ou L29, algo assim, e o sujeito não queria me deixar entrar. Fui para uma salinha, aquele constrangimento típico pelo qual passam cidadãos de países que os americanos não sabem direito onde ficam – quase todos.

Depois de uma meia hora, um policial gordo e suado me chamou para uma rápida entrevista, perguntou o que eu vinha fazer na América (odeio esse negócio de chamar os EUA de América, mas vá lá) e eu respondi que ia a Indianápolis. Ah, você é piloto?, perguntou.

Serão dias difíceis, pensei com meus botões. Expliquei que não, que era jornalista, que estava lá por obrigação, que a culpa de o carimbo estar incompleto não era minha e que se ele quisesse me dar um visto de cinco dias, tudo bem, porque eu ia embora cinco dias depois, mesmo. E foi o que ele fez.
Assim cheguei à América. Enfiei-me num Days Inn em Indianápolis, aluguei um carrão parecido com o do Kojak e decidi deixar a má-vontade de lado, senão seria muito duro aguentar as patuscadas ianques. Fiz bem. Passei a comer panquecas com melado de manhã e a tomar Dr. Pepper, o pior refrigerante de todos os tempos.

Foi a decisão mais acertada, porque só assim para entrar no clima das 500, a corrida mais espetacular do universo. Naquele ano ganhou o Al Unser Jr., com o Scott Goodyear a um microlésimo de segundo, uma chegada sensacional. Visitei o Museu, andei na pista com o James Gardner guiando o pace-car, ganhei moletons e bonezinhos e ainda tomei várias Miller geladas na sala de imprensa, um bangalô com dois aparelhos de televisão cheio de velhinhos simpáticos.

Voltarei a Indianápolis no ano 2000, agora para ver de perto a F-1 correndo lá. Parece um sonho. Encontrarei os mesmos velhinhos, espero, e o mesmo entusiasmo daquele público louco que pede para as meninas mostrarem os peitos nas largas avenidas que levam ao Speedway. E elas mostram. Vou comer asinha de frango no Rooters da Central Station e paquerar as meninas de shorts cor-de-laranja e camisetinhas brancas, tomando cerveja de jarra. Vou rever a América, bem longe de Miami e adjacências, num lugar onde só tem caipira e gente boa.

E vou escovar os dentes com Crest, um dos maiores orgulhos de Indianápolis, ao lado do fato de ter sido a cidade onde Elvis Presley fez seu último show. É ou não é um barato? Welcome, race fans! Gentlemen, start your engines!

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