O PAÍS DAS BUNDAS – 24/03/2000

Que Ferrari, que nada! O melhor do dia ontem em Interlagos só surgiu quando já não havia carro nenhum na pista. Sheila Mello. A Loira do Tchan. Isso é o Brasil. O resto é papagaiada. Ninguém chamou tanto a atenção no autódromo do que a garota, uma espécie de escultura ambulante. E olha que ela chegou no fim da tarde, horário em que a maioria dos chatos que invadem os boxes em São Paulo já tinha ido embora. Mesmo assim, foi um alvoroço. Atropelaram até carenagens de carros para ver a moça de perto.

Não sei o que a Sheila veio fazer na pista. Certas celebridades, quando aparecem em eventos nos quais teoricamente não têm nada a fazer, não precisam falar nada. Basta aparecer. No caso da Sheila, se estiver de camiseta da Playboy, calça branca com janelinhas e salto alto, não há nada mesmo a dizer. Se ela tirar a camiseta, então… E ela tirou a camiseta.

Sheila é um emblema do país das bundas. E antes que me esculhambem e xinguem de antipatriota ou coisa que o valha, é só dar uma olhada na capa da pasta que contém o programa oficial do GP do Brasil. É uma montagem, uma foto em preto e branco de um pit stop da Ferrari. Trocando um dos pneus, uma moça maravilhosa, de shortinho e top. Uma bunda, em resumo. A imagem está impressa também em algumas credenciais e nos coletes de fotógrafos.

E quem produz esse negócio é a FIA. As capas do material oficial de cada GP seguem um padrão estabelecido antes do início da temporada. Na Austrália, em vez de uma bunda, havia um canguru e a inscrição Jump Start, uma brincadeira com a expressão usada para definir uma largada queimada, quando o piloto deixa seu carro pular sem querer.

Portanto, fiquemos com nossas bundas, já que não temos cangurus. É depreciativo para a imagem do Brasil? É. Alguém deveria reclamar? Sim. Mas não serei eu. Encaro as coisas pelo lado positivo. Em vez da bunda, poderiam colocar uma foto de um mendigo, ou de um sem-terra, ou de qualquer outro tipo de vítima da iniquidade deste país. Aquelas coisas que nos envergonham, e mesmo assim a gente não faz nada.

Pelo menos de bunda o Brasil não se envergonha.

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VIVA O POVO BRASILEIRO – 17/03/2000

Minha urticária anual na semana que antecede o GP do Brasil será um pouco pior do que em temporadas passadas. Agora, além de ser mal-educado com as dezenas de amigos e conhecidos de última hora que veem em mim uma espécie de bilheteria que distribui ingressos gratuitos para a corrida, tenho também de demover pequenas multidões de suas intenções homicidas contra Michael Schumacher.

Muito antes do que eu imaginava, o alemão já virou um novo Alain Prost para torcedores que adoram o Brasil quando o país parece ser capaz de ganhar alguma coisa. Primeiro, é difícil explicar que o Brasil não vai ganhar coisa nenhuma quando – e se – Barrichello vencer um GP. Uma eventual vitória será dele, pessoal, única e exclusivamente de Rubens, e não de toda uma nação varonil que vai-estar-com-você-dentro-desse-cockpit-vermelho, como vão dizer os locutores por aí.

Barrichello não leva nação alguma no cockpit da Ferrari. Leva sua capacidade de pilotar e sua vontade de vencer, e um passado recente de muitas dificuldades em equipes menores, de trabalho duro e – surpresa! – anos de descrédito dos mesmos hiper-super-ultra-brasileiros que, agora, se orgulham de ter nascido neste bananal.

Schumacher e a Ferrari sacanearam Barrichello em Melbourne, disso a pátria não tem mais nenhuma dúvida. Poucos são aqueles que, com alguma serenidade, foram capazes de analisar seu desempenho na Austrália friamente, até concluir que sua corrida foi normal, nem boa nem ruim, apenas dentro do que se espera de pilotos de equipes de ponta – que subam ao pódio.

Nem Schumacher fez nada de excepcional. Não precisou passar ninguém, os caras da frente quebraram, foi uma vitória fácil, banal. Ah, mas só ganhou porque mandaram o Rubinho parar!, foi o que me garantiram por aqui. OK, se a certeza é tão grande, quem sou eu para contestar? Por via das dúvidas, perguntei sobre a tática ao próprio Barrichello lá na Austrália, e ele achou tudo brilhante.

Ah, estava mentindo só pra garantir o ambiente na equipe!, me garantiu outro. Então tá. Imagine o que vai ser em Interlagos se ele não ganhar. No fundo, tenho pena de Rubens. Esse tipo de pressão irracional, que beira a debilidade mental, é a pior que um piloto poderia desejar.

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM – 10/03/2000

Creio que já usei o título acima em alguma coluna do passado. Não vou pesquisar. É que jornalistas gostam de usar nomes de filmes como títulos para seus textos. Demonstra certa erudição de almanaque, embora as fitas lembradas sejam sempre citações fáceis, como O Exterminador do Futuro quando algum atleta arrebenta a concorrência, ou O Último Tango em Paris, quando algum argentino faz alguma coisa na França.

Não importa. Esta pode ser a primeira noite de Rubens Barrichello, a perda da virgindade como a de Dustin Hoffmann naquele filme de 69, acho, em que ele traça uma senhora respeitável depois de levá-la para passear em sua Alfa Romeo Spider. Daí a lembrança.

Rubens espera por uma vitória desde 91, ano em que ganhou o título da F-3 Inglesa. Em 92, na F-3000, não venceu. Na F-1 desde 93, também não. A seu favor, argumente-se que carro para ganhar, mesmo, ele não teve nos últimos sete anos.

Há uma certa condescendência nessa afirmação, no entanto. Desde que Barrichello chegou à categoria, pilotos de equipes consideradas pequenas ganharam corridas. Foram poucos, é verdade. Dá para contar nos dedos de uma mão: Panis em Mônaco/96 com a Ligier, Hill em Spa/98 com a Jordan, Frentzen em Magny-Cours e Monza/99, também pela Jordan, e Herbert em Nürburgring/99, pela Stewart. E Barrichello não está entre esses vencedores, apesar de ter corrido na Jordan e na Stewart, que beliscaram suas vitoriazinhas.

De 93 para cá, todos os outros triunfos da F-1 ficaram nas mãos de quatro equipes: Williams, McLaren, Benetton e Ferrari. Schumacher é responsável por um punhado delas, inclusive quando a Benetton era apenas um time médio – daí a fama de superstar que Rubens está longe de alcançar.

Mas ainda há tempo de sobra, se não para entrar na história, pelo menos de ganhar GPs. Barrichello completa 28 anos em maio, a idade que Senna tinha quando chegou à McLaren. Pode usar a seu favor a experiência de 113 GPs para lidar com as situações adversas que terá pela frente. A maior delas é a concorrência de Schumacher.

Que não será fácil. Não porque, como imagina a maioria, o alemão é um crápula pronto a despejar açúcar no tanque do carro de Rubinho, ou encomendar um pistoleiro para furar seu pneu. É porque o cara é bom, rápido, metódico, profissional e carismático. Será interessante para Barrichello observar o alemão de perto, aprender com ele e cuidar de sua boa reputação no meio. Também ao contrário do que se imagina no Brasil, Rubinho não é visto na F-1 como um trapalhão pé-frio, como muita gente por aí costuma tratá-lo. No dia em que Schumacher parar, talvez não haja ninguém muito melhor que ele para assumir o posto de número um da Ferrari. Esse deveria ser o objetivo de longo prazo de Barrichello.

Quanto à primeira noite, ela virá. No filme, o personagem de Hoffmann esperou quase 20 anos. Talvez Rubinho não precise de tanto.

SAPUCAÍ x ALBERT PARK – 03/03/2000

Algumas razões que me levam a trocar a Sapucaí pelo Albert Park neste final de semana.

1) Eu não ia mesmo ao Rio ver o desfile das Escolas de Samba. Aliás, nunca fui, só quando era pequeno e morava lá, e nem existia o Sambódromo, ainda. Na época, decorei o sambada Portela (Lá vem Portela/com Pixinguinha em seu altar, etc.), mas meu pai enganou todo mundo e levou a gente para ver o segundo grupo, o que me traumatizou porque não pude cantar o samba.

2) Aos carros alegóricos, que sempre quebram na entrada da passarela e judiam dos caras que precisam empurrá-los e não podem nem dar uma sambadinha, prefiro os carros de Fórmula 1. Eles também são coloridos e andam sozinhos.

3) Não pago ingresso em corridas de Fórmula 1.

4) Tomo cerveja de graça nos motorhomes das equipes.

5) Não aguento mais ouvir falar sobre os 500 anos do Brasil, e todas as Escolas vão cantar o mesmo tema, enchendo suas letras de condes, barões e marquesas que, acredito, nunca existiram – só servem para fazer rima, como o Conde de Surubim e tamborim, ou a Marquesa de Tiririca e cuíca.

6) Não sou amigo da Tiazinha, nem da Feiticeira, nem da Carla Perez, nem da Adriane Galisteu, e pra ficar babando diante da TV ou pendurado num camarote, é melhor fingir que elas não existem.

7) Nunca consegui entender a diferença entre harmonia e evolução. Por outro lado, compreendo bem o sentido de uma pole-position ou de um pit stop. Como sou palpiteiro e não gosto de dar palpites sobre o que não conheço, embora sempre o faça, é melhor ficar com as corridas, mesmo.

8) Somando tudo, o desfile leva umas 15 horas em dois dias e quando acaba ninguém sabe quem ganhou. Corrida tem uma hora e meia e é fácil, o que chega na frente leva, se não tiver um defletor irregular.

9) Em Melbourne, posso sair do autódromo na hora que bem entender, sem correr o risco de ser acertado por uma bala perdida ou de ver o Sérgio Naya por perto.

10) Se eu ficasse no Brasil, iria para a praia. Dez horas parado na estrada na ida, mais dez na volta, com um sol de rachar na cabeça. É mais ou menos o tempo que vou passar dentro do avião, com ar-condicionado e aeromoças bonitinhas me servindo canapés.

Por tudo isso, amanhã embarco rumo à Austrália. Mas não esqueçam de me avisar quarta-feira quem ganhou no Rio!

PENSAMENTOS AVULSOS – 25/02/2000

Atrasado, como sempre, para entregar este texto às redações, nada mais me restou do que lançar alguns pensamentos avulsos depois de acompanhar por estes dias, a distância, testes aqui e ali, reformas em Interlagos, novos rounds da briga FIA x União Européia, os problemas da Ferrari…

Vamos a eles.

Interlagos, para começar. Vi as obras pela TV, porque ir até o autódromo com o trânsito de São Paulo é um exercício de paciência para o qual não estou preparado. E com o calor que anda fazendo por aqui, não dá. Meu fusca novo não tem ar-condicionado. (Novo em termos; é um fusquinha 65.) Parece que não vai dar tempo, tamanha a quantidade de tratores, caminhões, operários e entulho. Mas no fim sempre dá.

Mosley e a União Européia. Mais uma vez, o presidente da FIA diz que vai dar um pé na Europa, deixar duas ou três corridas no continente, e se pirulitar para mercados mais amigáveis. Para quem não se lembra, a UE acusa a FIA de exercer um monopólio sobre a F-1 que contraria as regras de livre mercado na Europa. Duro é escolher dois ou três entre GPs tão legais e tradicionais. Eu ficaria com Mônaco, Monza e Spa. Mas ia sentir muita falta de Hockenheim, Nürburgring, Silverstone… Magny-Cours poderia desaparecer do mapa que não faria falta nenhuma.

E dizem que está cheio de país por aí querendo sua corridinha. A saber: Líbano, Emirados Árabes, China, Rússia, Coréia, África do Sul… Um GP em Beirute não seria nada mau. Kyalami merece. Rússia, nem pensar. Coréia idem, quem já foi diz que Seul é um porre. China seria legal. Opção não falta.

Arrows voando baixo em Barcelona, Minardi metendo tempo na McLaren. É para quem acredita em Papai Noel, o que não é meu caso desde o ano retrasado quando roubaram a Portuguesa num jogo com o Corinthians. Alguma coisa as nanicas estão aprontando. Carro abaixo do peso, por exemplo. Mas que seria legal ver o De La Rosa dividindo freada com o Schumacher, seria.

Ferrari atrasada, para variar. É sempre assim. Mas na hora em que precisa, o carro acaba andando, Schumacher ajuda, creio que Barrichello também não vai decepcionar. Os ferraristas não precisam perder o sono.

Fica agora apenas a expectativa, enorme, pelos primeiros treinos em Melbourne. Estou com saudade dos carros, do barulho e dos cangurus.

NÓS.COM.BR – 18/02/2000

Alguns anos atrás, quando a eletrônica embarcada nos carros de F-1 espantava os menos habituados a conviver com computadores & periféricos, lembro que publicaram uma charge numa revista italiana qualquer. Três pilotos, acho que Senna, Mansell e Prost, apareciam na mureta dos boxes, cada um com um controle remoto às mãos, e diante deles passavam zunindo seus carros.

Naquela época, os puristas excomungavam a tecnologia que permitia a qualquer zé-coió se transformar em piloto de F-1, porque aquelas máquinas andavam sozinhas. O sujeito não precisava se preocupar em trocar marchas, e se acelerasse mais do que o recomendável numa curva, tudo bem, porque o controle de tração corrigia. Ondulações, então, eram como se não existissem, desprezadas olimpicamente pelas suspensões ativas.

Estávamos em 92, 93. Não havia Internet, ainda. Fax era um negócio bastante popular e os jornalistas que acompanhavam as corridas já tinham deixado para trás as velhas máquinas de telex. Todos usavam seus computadores pessoais, laptops que, hoje, um adolescente olharia como se estivesse diante de um objeto feito no século passado.

A F-1 colocou o pé no breque, proibiu as traquinagens eletrônicas embarcadas, mas é claro que a evolução continuou, especialmente nos recursos disponíveis para a construção dos carros e para analisar seu desempenho em todos os tipos imagináveis de situações.

O mesmo se deu na periferia do esporte, entre aqueles que o acompanham e aqueles que são pagos para contar o que anda acontecendo nas pistas e fora delas. Que eu me lembre, apenas um jornalista, alemão, acho, não se rendeu e usa uma adorável Olivetti para escrever seus textos. Deve ser o melhor de todos nós. Os demais são centrais ambulantes de informações, fotógrafos inclusive – filme, revelação e ampliação são termos que os mais jovens nunca ouviram.

Toco nesse assunto porque vive-se no mundo uma febre insana cujo epicentro é algo virtual, não palpável, a web, a rede, a Internet. Ninguém sabe onde ela fica, sabe-se apenas que ela está aí, no ar, em algum lugar, em todos os lugares. Por ela tudo se vê, compra, lê. Inclusive a F-1, que deixou de ter segredos, tem milhares de sites especializados, as informações chegam mais rapidamente do que se viessem abordo duma Ferrari.

E daí?, pergunta você. Sei lá, respondo eu. É que penso nisso cada vez que embarco num avião para cruzar o mundo e ver uma corrida de perto. O que será que eu terei a dizer além daquilo que alguém já viu e colocou na Internet? Pode parecer uma questiúncula, mas ela se estende para minha profissão como um todo. Éramos repórteres, aqueles que reportavam. Hoje somos provedores de conteúdo, para usar uma expressão em voga.

E, como provedor de conteúdo, descobri que hoje tinha pouco conteúdo para oferecer. Talvez porque reportando eu seja mais eficiente. Mas será que ainda precisam de nós?

VADE RETRO, RAMBO! – 11/02/2000

E nosso fortão Sylvester Stallone desistiu de fazer seu filme sobre Fórmula 1. Sorte da Fórmula 1. Definitivamente, não é a praia dos americanos. Disse nosso ator predileto que é tudo muito formal, difícil de conhecer as pessoas etc. e tal. Legal é a Indy, com toda sua tecnologia e glamour. O glamour de Milwaukee, Nazareth, Houston, Laguna Seca. Figuras carismáticas como Massimilano Papis, Adrian Fernandez e Carl Hogan.

De fato, a Europa é um tanto quanto assustadora para os caipiras da América. Quem assistiu a Pulp Fiction deve se lembrar da passagem impagável no início do filme, quando o personagem do John Travolta, que tinha acabado de voltar da França, conta a um amigo o que mais o impressionou em Paris: o Quarteirão com Queijo do McDonalds (que nos EUA é o Quarter Pound with Cheese, ou algo parecido) se chama Royal Cheese!

É bem isso. Americano consegue ver pouco além do balcão do McDonalds, onde quer que esteja. Um americano com cérebro de ameba como Stallone não saberia mostrar a F-1. Jamais entenderia tudo que cerca esse mundo cheio de idiossincrasias, mas inegavelmente charmoso e sedutor.

Aliás, lembrei de uma historinha de alguns anos atrás que ilustra bem a total incapacidade dos caipiras da América lá em cima em compreender que o mundo vai além de Dakota do Norte. Eu estava no aeroporto de Frankfurt, pronto para voltar ao Brasil, e gentilmente segurei a porta do elevador para um casal de velhinhos. Agradeceram cheios de mesuras e de bate pronto, quando respondi em inglês, declararam: somos de Sheridan, Wyoming, e você?

Disseram Sheridan, Wyoming, como se estivessem num acampamento de verão nas montanhas de Nevada, com outros coleguinhas do colégio. Sequer cogitaram a possibilidade de eu não saber que Wyoming fica nos Estados Unidos. Parece, não sei direito porque nunca vivi lá, que é costume dos americanos, ao se apresentarem, acrescentarem cidade e Estado ao nome e idade. Uma espécie de RG ambulante.

Respondi na mesma moeda, falei que era de Quixadá, Ceará. What?, perguntaram em uníssono, e eu disse que ficava no Zimbábue, o elevador chegou aonde tinha de chegar e fui embora.

Não, um filme produzido por Stallone corria o risco de esculhambar a F-1. Alguém viu Dias de Trovão com o Tom Cruise, uma xaropada cujo pano de fundo era a Nascar? Pois é, ia sair algo parecido. Melhor deixar a F-1 quietinha num canto. Quem quiser vê-la nas telas que vá à locadora mais próxima e tente alugar Grand Prix, de John Frankenheimer, um clássico de 1966.

OK, Frankenheimer é americano, eu sei, mas está em outra, rodou Amazônia em Chamas, a história de Chico Mendes, e seu último filme, Ronin, com Robert De Niro, é tudo, menos uma historinha de sopapos e explosões. É a tal exceção que confirma a regra, um cara sensível e inteligente, um bebum adorável que deve ter nascido no país errado sem querer.