NÃO DÁ PRA SER NORMAL – 26/11/1999

Daqui a quatro dias, o Brasil reestréia na Fórmula 1. No momento em que Rubens Barrichello entrar no cockpit da Ferrari para seu primeiro teste em Fiorano, acaba um ciclo e começa uma nova era para o país nas pistas. Pelo menos uma geração de jovens pilotos vai ter em Rubinho seu exemplo para o futuro. Se ele começar a ganhar corridas, vira ídolo, algo que nunca conseguiu em sete anos de F-1, e o estímulo estará dado. Se for um fracasso, não haverá em quem se mirar e a molecada continua órfã.

Nos últimos 30 anos, muitos garotos bons apareceram por aqui. E todos que chegaram a ganhar alguma coisa tiveram como exemplos de vida Emerson, Piquet e Senna. Depois de 94, o Brasil praticamente sumiu do mapa-múndi do automobilismo. Ficaram poucos pilotos na F-1 e sempre em equipes menores. Na Indy, sobravam pilotos e faltava talento.

O automobilismo brasileiro vive do passado vitorioso do trio que conquistou oito títulos mundiais na F-1 e um na Indy. A meninada continua se espelhando neles para traçar seus caminhos, embora a maioria só os tenha visto correr pela TV, em velhas fitas de vídeo.

Daí a importância do comportamento de Barrichello na Ferrari. Ele será perseguido pela imprensa 24 horas por dia, brasileira e italiana, e tudo que fizer será notado e relatado. Deslizes não serão perdoados. É assim que o mundo funciona para as estrelas do esporte.

Rubinho mudou de turma. Dar a tal da sambadinha no pódio pode ser engraçadinho quando se corre numa equipe pequena, mas na Ferrari vai ser interpretado como uma inaceitável macaquice terceiro-mundista — com alguma razão.

Falar um mau português, fazer molecagem em público, chorar demais, dedicar tudo a Senna, tirar sarro dos adversários, comer um sanduíche no boteco do Manolo na galeria do prédio onde trabalho, na avenida Paulista (Rubinho vive vindo aqui, porque tem vários amigos na Jovem Pan 2), tudo isso terá de ser deixado de lado.

Barrichello, quando foi contratado, disse que uma das únicas coisas que esperava do futuro — além, claro, de ganhar corridas — era “continuar a ser uma pessoa normal”. Ele vai perceber que isso é impossível quando se trata de um piloto da Ferrari. Será seu primeiro desafio, o de enfrentar a necessidade de mudar o estilo, as atitudes, a vida, enfim.

Mas era tudo o que ele queria, afinal, e talvez o preço nem seja tão alto assim.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s