O FUTURO QUE NÃO CHEGOU – 24/12/1999

Quando éramos pequenos, todos nós, o ano 2000 não passava de uma miragem. Número redondo, respeitável, grave, era a nossa representação mais palpável do que seria o futuro. O futuro. De máquinas maravilhosas, viagens interplanetárias, colônias espaciais, foguetes individuais, robôs inteligentes, fartura, riqueza.

Erramos em tudo. Não há máquinas tão mais maravilhosas do que havia há 20 anos. Um aspirador de pó é um aspirador de pó, ainda que hoje tenha mais botões e um manual do usuário menos compreensível. O mesmo se aplica à TV, ao aparelho de som, ao fogão, ao liquidificador e à máquina de lavar roupa. Exceções: criamos o CD, menor e mais armazenável que o LP, embora muito menos charmoso. O micro-ondas, também, para requentar nossos atrasos. Mas o mundo viveria muito bem sem eles.

As viagens interplanetárias continuam fazendo parte da ficção, mal conseguimos chegar a Marte com uma sonda, ninguém mais se interessou em ir à Lua, fazer o quê naquela paisagem fria e desolada? Da mesma forma, as colônias espaciais ficaram apenas no papel, quem vai trocar água de coco e camarão frito numa praia na Bahia por comprimidos vitamínicos servidos num trambolho em órbita?

Foguetes individuais nunca foram construídos, continuamos presos em congestionamentos no trânsito, apenas os carros parecem mais modernos e confortáveis — é preciso, já que ficamos mais tempo parados dentro deles do que andando. Robôs inteligentes nossa inteligência foi incapaz de criar. Fartura só na mesa dos mesmos, riqueza idem.

Ao acordar no dia 1º de janeiro do ano 2000, vamos cair na real e perceber que o futuro, ao contrário do que esperávamos, não chegou ainda. Existe só o presente, e ele não é exatamente o que gostaríamos que fosse, é muito parecido com o passado, é a comprovação de nossa iniquidade e incapacidade de construir um mundo justo e digno.

Há computadores e caixas eletrônicos, internet e TV a cabo, celulares e telefones sem fio, máquinas de refrigerantes e sanduíches, fotografia digital e microcâmeras, mas nada de muito significativo. Tirando a internet, uma surpresa de fim de século, o resto era mais ou menos previsível.

Em compensação, há décadas não surge um gênio musical ou literário, um líder pacifista, alguém de quem possamos nos orgulhar, como espécie. Nada. Somos apenas bons fazedores de máquinas. Olhando para trás, não há muito o que festejar. Olhando para a frente, há muito ainda por fazer.
*
Esta é minha última coluna publicada nos anos 1900. A da semana que vem já sai com a data de 1/1/2000. Nem citei Fórmula 1, mas meu leitor mais assíduo já está acostumado a essas maluquices. A Fórmula 1, aliás, incluo na categoria de máquinas bem feitas que chegam ao futuro muito parecidas com o que eram 50 anos atrás. Têm rodas, pneus, motor, volante, essas coisas. Correm mais ou menos igual. Matam menos, talvez. Mas no fundo são a mesma porcaria, andam em círculos, e a que chega na frente é a melhor, as demais que se contentem com as migalhas. Uma metáfora da vida.

Bom futuro a todos.

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