O NÚMERO DOIS – 17/12/1999

Só anteontem pude assistir pela TV ao videoteipe da tal corrida de kart que vários pilotos de F-1 disputaram em Colônia, na Alemanha, há duas semanas. Aquela que o Schumacher ganhou, com Barrichello em segundo lugar.

No Brasil, a disputa foi tratada como “o primeiro duelo” pela mídia. Uma prévia do que veremos no ano que vem, berrava o locutor da Sportv a cada dez segundos, especialmente enquanto Rubinho estava na frente. Depois que o alemão passou, o sujeito murchou.

É uma monumental bobagem, claro, querer transportar para um campeonato de F-1 o que acontece numa brincadeira beneficente de kart. Mas foi uma boa mostra, mais uma, daquilo que vai acontecer no ano 2000 com a imprensa. Aí sim dá para comparar. Se os caras ficam histéricos numa corridinha de fim de ano, imagine como será num GP.

Para quem não sabe, a festa de Colônia teve várias baterias classificatórias e uma final. Todas emocionantes e engraçadíssimas, afinal eram pilotos de primeira que lá estavam, sem compromisso algum que não se divertir. Era um tal de dar totó, tirar o outro da corrida, tocar rodas, tudo aquilo que não se deve fazer numa corrida de verdade, porque corrida tem regras, afinal.

Na decisão, depois de uma largada em que todos bateram em todos, Rubinho assumiu a liderança com Schumacher atrás. Os dois são exímios kartistas, dá gosto de ver. O alemão ficou várias voltas pressionando, até que Barrichello errou na saída de uma curva de alta, tocou na proteção lateral da pista e rodou. Schumacher assumiu a ponta, disparou na frente e ganhou. O brasileiro ainda recuperou o segundo lugar. Ponto final.

Mas percebi em relatos que andei lendo tentativas de explicar a derrota. Escreveram que tinha um pneu mal colocado na proteção da pista e isso “tirou a vitória do nosso Rubinho”. Outros disseram que Schumacher bateu nele de propósito. Nada disso aconteceu. Foi apenas o primeiro capítulo da longa novela que acompanharemos na imprensa nos próximos dois anos, que poderia ser intitulada “Justificativas para uma Derrota em Treino, Corrida, ou qualquer Competição que tenha Rubinho como Protagonista, principalmente se Schumacher for o Adversário”.

Será um festival de desculpas esfarrapadas, que não se deve nem atribuir ao piloto, mas sim ao nosso eterno complexo de inferioridade, tão bem traduzido pela mídia quando o Brasil perde uma Copa, uma medalha olímpica, um Oscar, um Nobel, esse tipo de coisa que dá prestígio às nações.

Uma imagem no final da corrida de kart, no entanto, serviu como alento, pode ser um indício de que Rubinho não se deixe levar pelo que vai ler e ouvir no ano que vem. Ao cruzar a linha de chegada, Schumacher ergueu o braço direito com o dedo indicador em riste, aquele sinal típico do número um, como aquela cerveja. Barrichello fez o mesmo fez o mesmo ao receber a bandeirada, mas com o indicador e o dedo médio. O número dois. Sem traumas ou ressentimentos, engraçado e espirituoso. Foi a melhor coisa que ele fez em Colônia.

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