VALEU O ESFORÇO – 04/12/1999

Não foi uma viagem fácil. Passar horas sobre uma ponte a zero grau vendo um carro de longe é cansativo e desconfortável, os pés ficam gelados enfiados na neve, os lábios racham, as mãos congelam, mesmo com luvas. Fazer tudo isso e ainda não poder entrevistar o piloto é frustrante, mas valeu.

Os últimos três dias que vivi no norte da Itália deverão ser lembrados com carinho daqui a alguns anos, quando me sentar à mesa de um boteco qualquer para contar minhas escassas histórias de Fórmula 1. Afinal, vi e ouvi o momento em que o primeiro piloto brasileiro dirigiu um carro da Ferrari na história, na condição de contratado para disputar o Campeonato Mundial.

E Rubinho foi bem, “vestiu” a Ferrari, como a gente diz. Comportou-se com serenidade, não ficou babando de emoção (“só fora do carro”, confessou) e trabalhou como gente grande. Na quinta à noite, fez a gentileza de convidar para jantar os quatro jornalistas brasileiros que vieram a Maranello cobrir a sua estréia.

Falou bastante, à vontade, e admitiu que tem consciência de que é personagem atuante de um ciclo que se inicia no automobilismo brasileiro. Depois de cinco anos, o país volta a ter um piloto em condições de ganhar corridas. “Eu preferia nem ter essa consciência, porque é uma pressão que não desejo. Mas sei que ela existe, de aumentar a audiência da F-1 no Brasil, de dar alegria a um país que tem tanta coisa de que se queixar, dos políticos, da falta de grana, de tudo.”

Talvez Rubinho exagere um pouco, afinal a vida não é um GP, como não é um jogo de futebol. Mas ele tem razão quanto às pressões. Não serão pequenas. Todo mundo vai querer saber quando vai acontecer a primeira vitória, quando ele será campeão, por que o Schumacher está mais rápido…

Mas é melhor isso do que ficar andando atrás e explicando quebras e maus resultados. A Ferrari é tudo que Barrichello sempre quis, tudo que qualquer piloto sempre quis. Por isso mesmo ele tenta lidar com a emoção que aflora cada vez que vê seu nome pintado na carenagem vermelha. “Se eu ficar pensando nisso, na minha primeira corrida no Brasil, no povão me empurrando, não durmo. E então eu procuro pensar apenas em como é bom ter um carro competitivo. É isso, no fundo, que importa.”

É isso aí.

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