O FIASCO DE TODOS NÓS – 29/09/2000

Permitam-me falar um pouco sobre as Olimpíadas, mesmo sabendo que a F-1 vive um momento especial, a Ferrari prestes a acabar com seu jejum, algo histórico e, evidentemente, importante. Mas terei tempo para isso na semana que vem. E os Jogos terminam amanhã.

Passei muito tempo fora do Brasil no último mês, e me espanta o espanto das pessoas aqui pelo fracasso do país em Sydney. O que esperavam? Ver o Brasil brilhar, como diz aquela musiquinha da Globo, que chega a ser patética pelo ufanismo ridículo, fora de hora, mentiroso? O Brasil não sabe construir um prédio, asfaltar uma rua, dar comida e escola aos seus habitantes. Por que diabos seria uma potência olímpica? Para vencer no esporte, em qualquer coisa, é preciso ser bom. O Brasil é bom em quê? Samba? Caipirinha? Bundas?

Talvez. Mas não há 200 metros livres de bundas em Olimpíadas, nem maratona em sambódromo, nem concurso de quem bebe mais. Não é surpresa nenhuma o fiasco olímpico. Surpresa seria o contrário.

O brasileiro tem graves defeitos, e um deles é se achar bom, é achar que o país é demais, legal, o melhor lugar do mundo para se viver. Na verdade, não somos bons em nada. Nem no futebol, que viveu um grande momento nos anos 50 e 60, até 70, talvez, e no resto do século sempre foi uma força, mas nada assombroso como se tenta fazer acreditar.

Me irrita, na verdade, esse sentimento nacionalista de araque que toma conta do Brasil em competições internacionais. Locutores e repórteres de rádio e TV abusam dele. Nossa medalha, nosso vôlei, nosso Scheidt… Ganhamos, conquistamos, conseguimos. Tudo na primeira pessoa do plural, como se as conquistas dos brasileiros no esporte, suas parcas vitórias, fossem obra de um esforço coletivo de um país.

Não são. São resultado do esforço individual de meia dúzia de atletas, a maioria treinando fora do Brasil, onde encontram condições para tal. Nossos maiores atletas são um cavaleiro e dois iatistas, que praticam esportes absolutamente desconhecidos dos brasileiros. Rodrigo Pessoa nasceu em Paris, monta uma cavalo francês e vive na Bélgica. OK, é brasileiro, nada contra, é um senhor cavaleiro, mas não tem nada a ver com a realidade do Brasil. Dizer que suas medalhas são nossas é uma agressão a ele.

Como não eram nossas as vitórias de Senna, que nunca correu no Brasil antes da F-1, não teve nenhuma passagem pelo automobilismo brasileiro, era quase um estrangeiro em termos esportivos.

Nossas, na verdade, são as derrotas. Por que quando o vôlei perde o brasileiro se dirige aos jogadores com desdém, esses caras do vôlei, e quando ganha são nossos meninos? Por que as vitórias de Senna eram nossas, e as derrotas de Barrichello não?

Há uma distorção nisso. O brasileiro precisa entender que não ganha coletivamente, porque não há projeto nacional de nada, esforço coletivo para nada. Coletivamente, sim, somos perdedores incorrigíveis, nossos fracassos são o resultado da inépcia comum a todos, de um país que deu errado.

Não há surpresas no fiasco olímpico. Talvez ele nem deva ser tratado assim, genericamente. Alguns atletas, casualmente nascidos aqui, ou portadores de passaportes brasileiros, foram bem, ganharam medalhas, resultado de seu próprio esforço, não do Brasil nação, do Brasil país. O fracasso, este é de todos nós. Quando entendermos isso, teremos dado um passo para tirar o pé do atoleiro em que vimos nos afundando nos últimos 500 anos.

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