O VERDADEIRO PECADO MORTAL – 16/05/2002

Segunda-feira à noite, no avião, eu não estava nem um pouco disposto, como nunca estou, a conversar com o cara sentado do meu lado. Saquei meu super laptop e resolvi escrever sobre a corrida da Áustria. Eram muitas opiniões ouvidas, de todo tipo de gente, argumentos pró e contra a Ferrari, pró e contra Schumacher, pró e contra Barrichello, pró e contra a Fórmula 1.

Escrevi 150 linhas. É impublicável, claro. Não há jornal no mundo que aceite uma coluna de 150 linhas, muito menos escritas por mim. Joguei na internet, a internet aceita tudo. Em casos como esse, nós que escrevemos temos a necessidade de organizar as ideias. Minha organização foi evidentemente um fiasco. Quando se precisa de 150 linhas para explicar alguma coisa, você não entendeu nada, e ninguém vai entender o que você pensa.

O que é mais incrível, é que dá para resumir, a rigor, aquelas 150 linhas em poucas palavras: 1) a Ferrari fez uma burrada monumental, deu uma ordem antipática e, acima de tudo, desnecessária; 2) Schumacher perdeu uma ótima chance de dar uma de bonzinho e limpar a imagem, arranhada por tantas trapalhadas no passado; 3) Barrichello decepcionou muita gente com seu comportamento submisso, fez papel de palhaço no pódio, mas respeitou o contrato, isso ninguém pode negar; e 4) quem, diante do que aconteceu domingo, disser que a Ferrari foi ou será capaz das maiores infâmias para manipular um resultado a seu bel-prazer, não poderá ser contestado.

A partir dessas, digamos, quase unanimidades, pode-se especular sobre as consequências do ato destrambelhado da Ferrari em todas as direções. Pode-se especular sobre o quê cada um poderia ter feito, e o que aconteceria se: 1) Schumacher desobedecesse; 2) Barrichello desobedecesse; 3) a Ferrari, no fim do ano, ganhar o título por quatro pontos.

Bem, são infinitas possibilidades, não vale a pena ficar abrindo demais o leque. Já foi, é passado, está feito, melhor esperar o que vem por aí.

Mas há algo que não engulo, de jeito nenhum. Está lá nas 150 linhas do avião, e tentarei resumir. Domingo, mesmo, um colega, o repórter Fábio Seixas, da “Folha de S.Paulo”, recebeu um e-mail de um leitor. O sujeito tem um filho de sete anos apaixonado por F-1. A corrida chegava ao final e ele pediu ao pai para fazer um churrasco para comemorar, e para colocar a musiquinha do Senna no CD.
Quando Schumacher recebeu a bandeirada em primeiro, o menino desabou a chorar, inconsolável.

É nisso que os homens da Ferrari deveriam pensar quando tomam atitudes que ferem de maneira tão mortal a paixão pelo esporte. A F-1, como qualquer modalidade, vive de quem gosta dela. Não se pode magoar uma criança assim. Isso eu jamais vou perdoar. O resto, o contrato, o título, o pódio, a palhaçada de maneira geral, não interessa. Não há conquista que pague o choro de uma criança.

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