UM AUTÓGRAFO, POR FAVOR – 27/09/2002

Ontem pedi meu primeiro autógrafo na F-1. O primeiro para mim, a verdade seja dita. Em 1993, levei minha esposa a uma corrida no Canadá e, meio sem jeito, pedi um autógrafo ao Senna para ela, e ele ainda tirou uma foto ao seu lado. Senna era um cara normalmente duro em ambiente de autódromo. Mas naquele fim de semana em Montreal, uma cidade legal, um clima menos tenso do que nas corridas da Europa, estava sorridente e solícito, e ainda brincou com minha mulher, é você que aguenta esse baixinho?, coitada.

Mas, eu dizia, ontem pedi meu primeiro autógrafo, ao Jackie Stewart. Não que as oportunidades sejam muito raras. Quando o Rubinho corria na equipe dele, nos encontrávamos sempre. Stewart é um “case” de marketing, sempre sorridente, gentil, jamais recusa um autógrafo ou uma foto, sabe a importância de manter uma imagem simpática, e ajuda muito o fato de ser, realmente, um sujeito dos mais simpáticos.

O autógrafo foi por uma boa causa. Comprei outro dia, pela internet, um lote de revistas “4 Rodas” antigas, anos 60 e 70, que para mim foram as décadas mais interessantes da história da humanidade. Numa delas, de fevereiro de 1970, número 115, a capa é o Stewart. Quase inacreditável: “Campeão do mundo testa: Opala-Corcel-LTD-Volks 1600-Varian-Dart-Puma”.

Trouxe algumas dessas revistas para Indianápolis, para mostrar a um amigo que gosta de coisas velhas como eu. No paddock, cruzei com Stewart e mostrei a ele também. “Isso foi no fim de 69, ou 70”, falou de bate-pronto, sem nem ver direito o que era. Memória boa.

Stewart ganhou o título de 1969. A “4 Rodas” o trouxe ao Brasil para testar carros nacionais, como Corcel, Opala e até uma Variant. Não dá para imaginar um convite a Schumacher, hoje em dia, para fazer o mesmo com as porcarias de carros “mil” que inundaram as ruas do país. Esquece, é outra época.

Jackie olhou a revista e voltou no tempo. Na capa, ele aparece de camiseta branca, enormes óculos escuros, cabelos até os ombros e uma boina. No fundo, fora de foco, os carros que iria testar. Teste superficial, coisas como estilo, acabamento, estabilidade, aceleração, velocidade e nível de ruído. Stewart gostou do Opala e do Corcel, achou ruim a estabilidade da Variant, elogiou a aceleração do Dodge Dart e os freios do “Zé do Caixão” e ficou deslumbrado com o estilo do Puma.

Bons tempos, bons tempos. Arranquei um sorriso, mais um, talvez mais autêntico e sincero do que a maioria, do velho escocês voador ao lhe mostrar a revista. Autografou, claro. “Onde? Aqui? Na capa? Não vai estragar?” Não, não estraga nada, seu Jackie, assina onde quiser. Vou guardar com carinho, pequeno troféu de páginas amareladas, algumas com sinais da passagem de uma traça mais gulosa, mas no geral em ótimo estado.

Se tem algo que me pega nesse negócio de corrida é o passado. Minha “4 Rodas” autografada deve valer uma grana, agora. Mas vale, mesmo, o que tem dentro dela, e das outras todas perdidas pelos sebos, ou em caixas de papelão esquecidas num canto de casa. Valem as histórias que ela conta. Vale a história.

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O DIA EM QUE ACHEI OS COPERSUCAR – 26/09/2002

Quando os vi empilhados num canto escuro e úmido de uma lamentável oficina em Interlagos, senti-me uma espécie de Indiana Jones que havia acabado de encontrar o Santo Graal. É claro que minhas buscas foram bem menos perigosas. E mais rápidas, também. Comecei na segunda, acabei na terça logo depois do almoço. Poderia ter almoçado direito se a bateria de minha máquina fotográfica não tivesse terminado no meio do registro histórico, me fazendo sair correndo para comprar outra. Mas, nem por isso, a emoção foi menor. Afinal, estava diante de dois símbolos de uma época que não vivi plenamente, mas que sempre me despertou enorme curiosidade e fascínio.

Falo dos dois Copersucar que encontrei quase quatro anos atrás graças a uma dica aqui e outra ali de amigos e conhecidos, que acabaram me levando à referida oficina onde lá estavam, um sobre o outro, dois exemplares do modelo FD02. O primeiro, pilotado por Wilson Fittipaldi em 1975. O outro, por Ingo Hoffmann em 1976.

Eram carros lindos, em que pese o estado em que se encontravam. Lembravam, como me disse o Emerson uma vez, os charutinhos prateados da Auto Union dos anos 30. Habituei-me a enxergar beleza em destroços, gosto de carros antigos e coisas velhas, tenho até a moedinha número 1 do Tio Patinhas, uma réplica, claro. Nós que restauramos calhambeques somos como arqueólogos, que vibram com ânforas quebradas e pontas de lança.

Achei que havia feito uma descoberta espetacular, e que graças a ela, algum dia, veria os Copersucar desfilando por aí, quem sabe até umas voltinhas antes de um GP do Brasil no mesmo circuito onde Wilsinho testou o FD01 pela primeira vez, no final de 1974. Pelo menos foi o que o Emerson prometeu: “Vou botar esses carros pra andar, vou fazer um museu, vou…”. O carro não andou, o museu não saiu, o que não chega a ser surpresa nenhuma partindo do Emerson, mais do que tudo um sonhador. Ele deve ter esquecido dos carros assim que deixei seu escritório, e continuou a tocar sua vida.

Perdi o rastro dos dois Copersucar depois daquele dia. Fiquei decepcionado porque apesar do relativo estardalhaço, das fotos nos jornais, das reportagens que se seguiram, nada aconteceu. Soube, apenas, que foram retirados da oficina. O paradeiro, ao menos para mim, é desconhecido. E também já não me interessa.

Lembrei dos dois carros prateados nesta semana, a do 20º aniversário do último suspiro da equipe Fittipaldi na F-1. Na verdade, a preguiça não me permitiu correr atrás deles de novo, um Santo Graal a gente só encontra uma vez na vida. Na segunda não deve ter muita graça, vira filme velho. E, depois, é um esforço inútil, ninguém vai restaurá-los, vão apodrecer num canto qualquer e desaparecer do mundo, como quase tudo que vale a pena desaparece.

MIL E UMA NOITES – 19/09/2002

Já estava decidido. Ano que vem seria meu último ano na Fórmula 1. Estou ficando velho, outro dia apareceu um fio branco nas minhas costeletas (evento tratado com absoluto desprezo por minha esposa), acho que vi tudo que podia nesses quase 15 anos pulando de autódromo em autódromo. Vi Senna estrear na McLaren, cobri seus três títulos mundiais, estive em Imola naquele fim de semana ruim de lembrar, acompanhei o surgimento das gerações de Barrichello, Massa & companhia, relatei as aposentadorias de Prost, Mansell, Piquet, Hakkinen, testemunhei todos os incríveis recordes de Schumacher, visitei fábricas de equipes, ganhei um pistão da Ferrari de presente do Luca di Montezemolo, me emocionei com corridas fantásticas, conheci o mundo, e estava mesmo na hora de parar.

Sempre sonhei em me aposentar antes dos 40, para criar os filhos, cuidar dos meus carros velhos numa casa grande com garagem e escrever livros. Morreria de fome antes de publicar o primeiro, é claro, e teria de vender as velharias para pagar a escola dos moleques, mas sonhar não custa nada e já estava decidido. Au revoir Fórmula 1 no final de 2003, nada me faria mudar de ideia.

Até sábado passado. Foi quando pousou na minha mesa na sala de imprensa em Monza o comunicado assinado pelo simpático sheik Salman bin Hamed Al Khalifa, príncipe do não menos simpático Bahrein. É certo que a papeleta, de chofre, não impressionou muito. De um príncipe, o mínimo que se espera é material nobre, o brasão da família em relevo com detalhes dourados, em papel perfumado e encorpado. Mas veio uma cópia chinfrim, só não mimeografada porque mimeógrafo usa álcool e todos sabem que árabes não bebem.

A decepção com a qualidade da missiva, no entanto, não foi capaz de frear meu entusiasmo com seu conteúdo. Teremos uma corrida em Bahrein! Finalmente porei os pés em território islâmico, verei camelos no deserto, conhecerei mesquitas, posso até cruzar com simpatizantes da Al Qaeda em um beco escuro qualquer. OK, a Malásia também é um país oficialmente muçulmano, mas no primeiro ano de Sepang amarrei um legítimo porre de tequila num bar mexicano em Kuala Lumpur; muçulmanos que permitem a instalação de um botequim mexicano e a venda de margueritas em seu território há tempos deixaram de lado certas recomendações do profeta.

Agora, é Arábia de verdade. Homens barbudos, mulheres de véu, quibes e esfihas autênticas. Não vejo a hora. O mínimo que espero é trocar olhares proibidos com Jades e Latifas – que Alá não permita a minha mulher ler estas linhas, ou queimarei no mármore do inferno.

Aposentadoria adiada, pois. Não perco esse GP das mil e uma noites por nada. E já andam falando em corridas na terra de meu ídolo Mao, na Rússia, no Líbano, na Turquia. Acho que vou ficar nesse negócio mais um tempo.

O FIM DA VELHA VILA – 13/09/2002

O que fizeram com Monza?

Não, não me refiro às chicanes, nem às zebras, nem às lombadas colocadas nas áreas de escape. Não sou piloto, isso não me diz respeito. Nem ao novo pódio, circular, espetado numa coluna a quatro metros de altura. Ficou até interessante, o público vai poder ver os caras de perto, será uma festa bonita.

Mas onde está a velha vila de lojas e cafeterias? O “vecchio villagio”, atrás do paddock, com suas construções da década de 50 em tons pastel, circundando uma fonte e um laguinho, onde o pessoal sentava para comer sanduíche de presunto de parma e tomar chá gelado?

Lá se vendia de tudo, era o melhor mercado de pulgas da F-1, a começar pelo estilo das lojas, com pequenas e arrumadas vitrines, onde eu encontrava miniaturas de carros raros, fitas de vídeo espetaculares, macacões usados por pilotos como Bruno Giacomelli ou Vittorio Brambilla, capacetes originais de Jean Alesi ou Stefan Johansson.

Lá eu achava adesivos da Hesketh, da John Player Special, da March e da Brabham. As luvas que o Berger vestiu nos testes da Ferrari em 1988, um aerofólio quebrado da Jordan do De Cesaris, um pneu furado do J.J. Lehto. Pôsteres da Mille Miglia, fotos autografadas por Ayrton Senna, Roberto Moreno e Nelson Piquet, a balaclava do Prost, o boné do Mansell, pins da Lotus, da Leyton House, da Tyrrell.
Lá eu almoçava todos os dias. Cheguei a pagar meu sanduba em cruzados (faz tempo, a moeda era cruzado) uma vez porque não tinha trocado meus dólares por liras. Lá eu folheava livros maravilhosos, com as histórias de Ascari, Regazzoni, Ickx, Fangio, Moss, Nuvolari, Rosemeyer, da Lancia, da Maserati, da Auto Union, da Mercedes, da Alfa, das 24 Horas de Le Mans, de todos os GPs da Itália. Uma vez vi, emoldurado, um original do comunicado oficial do circuito de Zolder que informava que Gilles Villeneuve tinha morrido.

Derrubaram tudo. Precisaram de mais espaço no paddock, não sei para quem, já que as equipes estão falindo, e derrubaram o “vecchio villagio”. Foi tudo abaixo, o charme de Monza foi enterrado de vez, por que simplesmente não eliminam a corrida do calendário?

E bem na Itália, que sempre prezou o passado, conservou seus monumentos, nunca se desvinculou da história. Alguns metros à esquerda da minha vila ergueram um míni-shopping pavoroso, igual a qualquer um de qualquer lugar do mundo.

Não me aproximei. Na verdade o fiz, mas deixei minha alma de lado, procurando a velha vila, sabendo que nunca mais iria encontrá-la. Senti-me um estranho em meio a lâmpadas dicroicas e balcões de aço escovado e alumínio polido. Não há mais estantes de madeira, não dá para tocar em nada, não se pode regatear o preço. Está tudo em euros, e é duro falar euro na Itália, e não cento mila.

Eu nunca comprava nada, é verdade. Era um péssimo freguês, só olhava, sempre achei tudo muito caro. Quando muito, arriscava um bordado da Firestone para meu velho macacão usado para corridas de DKW, que nem existem mais. Era o que a verba permitia comprar.

Vai sobrar mais verba, este ano. Nesse shopping horroroso não compro mais nada.

E NÃO MUDOU NADA – 12/09/2002

Há um ano estávamos todos pasmos diante da TV. E pasmos ficamos nas semanas seguintes, diante da barbaridade e da sensação de que alguma coisa, afinal, iria mudar no mundo. Tinha de mudar. Nada seria igual depois do que aconteceu em Nova York e Washington. Era, talvez, a única unanimidade.

Pois nada mudou, exceto que Nova York tem dois prédios a menos. Sim, mais de três mil vidas se perderam nos atentados, e muitas mais no que se seguiu no Afeganistão. Mas hoje, um ano depois, aqui na Itália, vendo pela TV o show em que se transformaram as celebrações do primeiro aniversário de 11 de setembro, a única conclusão a que se chega é de que vidas não têm importância.

Os apresentadores de TV chegam até a sorrir ao lembrar dos aviões rasgando as torres gêmeas, há uma certa nostalgia no ar. Dezenas de parentes dos mortos foram entrevistados o dia todo, e pareciam felizes, tiveram seus 15 minutos de fama em rede nacional. Um sentimento de “sobrevivemos”, “somos fortes”, “somos heróis”. Heróis do quê? Os EUA, que, imaginávamos, abririam os olhos para o resto do planeta, se fecharam ainda mais. Acreditam verdadeiramente que “quem não está conosco, está contra a América”. Exaltam seus bombeiros e policiais, o prefeito que arregaçou as mangas e o presidente viril, e para por aí. O mundo que continue se danando. Vamos explodir o Iraque, é mais divertido.

Embarquei para Monza, no ano passado, um dia depois dos ataques. O clima era pesado, a consternação estava no rosto de cada um. Aquele GP da Itália não fazia o menor sentido, eu pensava. Nada fazia muito sentido, menos ainda uma corrida de Fórmula 1.

Bem, o tempo se encarregou de mostrar que fazia sentido, sim. A vida tinha de seguir como sempre seguiu, com suas tragédias e absurdos. As de 11 de setembro foram apenas mais uma nessa história lamentável do ser humano. Há piores, que só não chocam ninguém porque não têm cobertura da CNN. Só em São Paulo morre mais gente assassinada em três meses do que morreram nos atentados ao World Trade Center. Algo parecido acontece na Colômbia e na Nigéria. Mas não há câmeras para registrar tudo. O sofrimento é silencioso. A dor, oculta pela miséria.

Não, não mudou nada. Os aviões continuam voando, Osama Bin Laden continua escondido em algum buraco, os afegãos continuam pobres e famintos, os brasileiros continuam se matando, Silvio Santos continua rodando o pião, todo domingo tem Fantástico, segunda tem Jornal Nacional. Domingo tem corrida de Fórmula 1, também, a Ferrari vai ganhar, o bico do carro não será negro, não haverá minuto de silêncio. O mundo gira e a Luzitana roda, são verdades imutáveis.

Não mudou nada. Há dois prédios a menos em Nova York. Isso é tudo.

TODOS DEVEMOS A EMERSON – 05/09/2002

Há 30 anos, no dia 10 de setembro de 1972, Emerson Fittipaldi recebia a bandeira quadriculada em primeiro lugar no GP da Itália, em Monza, e se tornava, nas palavras de seu pai Wilson, “campeão mundial de automobilismo”. Wilson, o Barão, narrava as corridas para a rádio Panamericana. Estava emocionado, claro. Além de ser um brasileiro ali, a ganhar o campeonato, era seu filho, o Rato, que começara a carreira correndo de motocicleta em Interlagos, depois de Malzoni-DKW, Karmann-Ghia, Fitti-Porsche, essa fauna mecânica que forjou a história do automobilismo no país junto com as carreteiras, os Simca, os JK, a equipe Willys, a equipe Vemag, Greco, Lettry & cia.

Todos devemos tudo a Emerson. Quando ele partiu para a Europa, tendo como companheiro apenas o fiel escudeiro Chico Rosa – que viria a ser, anos depois administrador de Interlagos -, ninguém fazia ideia do que seria a vida lá fora. Tentar vencer nas pistas inglesas, nos anos 60, era uma aventura equivalente a sair do Brasil, hoje, para buscar o sucesso em corridas de camelos no Egito. Um salto no desconhecido.

Emerson venceu, e venceu rápido. Ganhou o quinto GP que disputou, em Watkins Glen, e ainda ajudou Jochen Rindt a ficar com o título póstumo – o austríaco, seu parceiro na Lotus, morrera semanas antes em Monza. A conquista de 1972 abriria de vez as portas da Europa para os pilotos brasileiros e, mais importante do que isso, ensinaria aos caboclos a trilha a seguir.

No rastro de Emerson vieram Pace, Wilsinho, Ingo, Piquet, Serra e Boesel, apenas para ficar na primeira leva. Depois Senna, Gugelmin, Moreno, Barrichello, Christian, Diniz, Zonta, Bernoldi e Massa. Devo estar esquecendo um ou outro, mas o que importa aqui não são os outros, mas Emerson. Foram 11 anos na F-1, os últimos cinco envolvido numa aventura ridicularizada na época, mas que hoje, tanto tempo depois, precisa ser reescrita e analisada, a Copersucar. Emerson, com o fracasso da equipe, caiu no ostracismo durante um bom tempo. Chegou a correr de superkart no estacionamento do Pacaembu, e quando já não havia muito a fazer recomeçou a vida nos EUA, num carro cor-de-rosa de um cubano, apresentando a Indy ao Brasil.

De novo o sucesso, títulos, vitórias em Indianápolis. Virou nome de rua em Miami. E começou a fazer bobagens depois que parou de correr. Caiu do ultraleve com o filho pequeno. Coisa de doido, andar de ultraleve poucos meses depois do acidente que encerrou sua carreira, em Michigan. Aí, se meteu com a organização da etapa brasileira da Indy. Nunca funcionou direito. Deixou um rastro de dúvidas e dívidas.

Mas a Emerson, como a Pelé, tudo se perdoa, faça as besteiras que fizer, diga as sandices que disser. Um será sempre Pelé, o outro será sempre Emerson. Eles são nossa história.

ESTUPIDEZES – 30/08/2002

A Fórmula 1 é cheia de estupidezes. Juro que não queria usar tal palavra, que no plural soa esquisita, como gravidezes. Mas é que não é só uma. A deste fim de semana, da Arrows, por exemplo: mandar um monte de funcionários da Inglaterra para a Bélgica, colocar carros e ferramentas e equipamentos nos caminhões, pegar estrada, chamar um piloto e inventar a inscrição de outro, montar os carros e… ir embora no final da tarde, sem sequer ligar os motores.

É coisa de doido, além de custar caro. Como foi cara a brincadeira na França, não só uma palhaçada, mandar os pilotos para a pista para fazer voltas lentas. A Arrows deveria fechar as portas de vez. Seu proprietário, Tom Walkinshaw, é um vigarista juramentado. Tudo em que coloca a mão dá pepino. O mais recente, antes da Arrows, foi o circuito de Moscou. Uma revista inglesa mandou um repórter à Rússia para encontrar a pista, que receberia a F-1 no ano que vem com investimentos de Walkinshaw. Não achou nada. Não vai achar nunca.

Agora vem a história da venda para “investidores americanos”. Um certo Cal Smith, de uma certa Utah Steel. Picaretagem da grossa, na minha modestíssima opinião. Cal, ou Carl Smith devem haver mais de 200 mil nos EUA. Ou um milhão. Ou dois milhões. É como Zé da Silva, ou João Pereira, ou Pedro Moreira. Inventaram um nome. O que um empresário de Utah quereria com a F-1? Em Utah ninguém sabe que F-1 existe, é algo tão excêntrico como futebol de botão, ou corrida de jegue. Em Utah, duvido que Mr. Cal Smith saiba sequer onde é a Europa. Ou o que é Europa.

Mas no ranking das estupidezes eu não colocaria essa novela da Arrows em primeiro lugar. Sou mais afeito aos detalhes. Fico com um episódio que estava guardando há alguns meses, sem oportunidade de contar. Em Nürburgring, na sala de imprensa, instalaram uma máquina de refrigerante. Daquelas fornecidas pela Coca-Cola. Tão característica que tinha uma réplica da inconfundível garrafinha de Coca-Cola na parte de trás.

E não é que colocaram fita isolante para tapar o nome Coca-Cola, da máquina e da garrafinha? Para não fazer propaganda junto a meia-dúzia de jornalistas com sede! É frescura demais. Depois não entendem porque a vaca está indo para o brejo.