QUEM SE IMPORTA? – 03/10/2002

Logo depois da papagaiada de domingo, tive uma ideia que, na hora, achei genial: republicar letra por letra a coluna que escrevi depois da corrida da Áustria, apenas trocando Schumacher por Barrichello e Zeltweg por Indianápolis. Seria minha forma de protesto contra nova marmelada, etc.

Claro que a ideia era bem estúpida, e ainda bem que não a levei adiante. Ninguém iria notar minha suposta genialidade e o texto ficaria ridículo. Afinal, se é verdade que se trata do mesmo doce, também é evidente que sua digestão foi muito mais fácil. A marmelada americana não causou indignação nenhuma, foi quase desprezada e a crítica mais severa que ouvi foi de um sujeito que me disse “como são bobos esses caras”, com o que concordo.

A troca de posições não passou de mais uma bobagem nesta temporada cheia de bobagens, um campeonato tão desigual que permitiu essa troca de gentilezas que não tem nada de esporte. Como diz outro amigo, e me perdoem o termo esdrúxulo, nada mais do que uma viadagem só possível porque as outras equipes não existem e os dois pilotos da Ferrari são amiguinhos.

E por incrível que pareça ainda houve, e há, quem continue discutindo o tema. Será que Schumacher quis mesmo deixar passar? Será que o alemão não errou a linha de chegada? Tenham dó. Ele ria que nem criança ao sair do carro e passou por aquela linha um milhão de vezes no fim de semana. Só um cretino de carteirinha erraria a linha de chegada. Tenham dó.

E tenham dó mesmo. A melhor análise que vi do fato foi, pasmem, de um colunista americano do “Indianapolis Star”, um jornal local com alguma tradição em automobilismo. “Who cares?”, ele perguntava em seu artigo de segunda-feira. É isso aí: quem se importa com quem ganhou a corrida, de que forma, com qual diferença, por quantos centímetros?

Não dá mesmo para se importar com esse tipo de coisa. Não quando vivemos sob ameaça de nova guerra patrocinada por um caubói obtuso, não quando assistimos impotentes à obscenidade do mercado financeiro que se diverte quebrando o Brasil, não quando estamos a três dias da eleição mais importante da história do país.

Esqueçam essa xaropada, a Ferrari que faça o que bem entender, assim como seus pilotos. Eles que se divirtam, que aproveitem o momento. Se quiserem brincar de roda no pódio de mãos dadas, que brinquem. Se quiserem pular amarelinha depois de estacionar seus carros enquanto os outros não chegam, que pulem. Se quiserem dançar forró agarradinhos e de capacete, que dancem.

Nós temos mais o que fazer. Tem eleição domingo, o Brasil está muito perto de reparar um enorme erro cometido há 13 anos. Isso sim importa. O resto, que me desculpem vocês que amam a F-1 acima de todas as coisas, é irrelevante.

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