UM VELHINHO LEGAL – 11/07/2003

As pessoas vão ficando mais velhas e, a cada dia que passa, mais engraçadas. Bernie Ecclestone é um cara engraçado. Basta conversar com ele cinco minutos, ou ver suas entrevistas. Aos 72 anos, vive a fase do não-estou-nem-aí-com-o-que-pensam-de-mim-ou-do-que-eu-digo. É escrachado e desbocado. Tem o raciocínio rápido e, em geral, desconcerta repórteres com suas respostas/perguntas.

Sim, respostas/perguntas. Uma vez fui entrevistá-lo sobre a possibilidade de o GP do Brasil sair de São Paulo para voltar ao Rio. “Por quê, você não gosta de São Paulo?”, me respondeu/perguntou. Eu disse que gostava mais ou menos, quer dizer, gostava, era minha cidade e tal, mas não era essa a questão, e sim a possível volta a Jacarepaguá e o que ele achava, não eu. “Você acha que deve?”, me respondeu/perguntou, e eu desisti.

Bernie, nos últimos tempos, tem falado pelos cotovelos. Nesta semana, chamou Barrichello de mercenário por sua passividade na Ferrari, sugeriu que Coulthard deixasse a McLaren, disse que Interlagos é um lixo e que tem vergonha de Silverstone. Já meteu o pau no novo formato dos treinos e agora inventou um GP do Vaticano em Vallelunga, pista que pretende comprar, ao que parece. Só falta convidar o papa para entregar os troféus.

Um jornalista amigo, sueco, me contou que há alguns anos estava com colegas em Havana, de férias, e resolveram inventar que existia a chance de um GP em Cuba. Telefonaram para Ecclestone, que topou levar a lorota adiante. A “informação” saiu em algum canto e cinco minutos depois as principais agências de notícias ligavam para o escritório de Bernie em Londres, que confirmava tudo com a maior cara de pau de pau. Cuba acabara de ganhar sua etapa do Mundial.

Ele não está nem aí. Nesses anos todos, só vi Bernie acuado depois da morte de Senna. O episódio foi por demais chocante e ele mesmo meteu os pés pelas mãos em Imola tentando assumir o controle de uma situação que, claramente, tinha fugido do controle de qualquer um. Naquele ano, perdi o emprego depois do GP de San Marino e voltei algumas corridas depois, no Canadá. No aeroporto de Nova York, esperando a conexão para Montreal, descobri que estava no mesmo voo que ele e pedi uma entrevista.

Eu trabalhava numa rádio, e disse que queria colocá-lo ao vivo, de dentro do avião mesmo, que tinha telefones nas poltronas. Assim que os avisos de apertar cintos se apagaram, Ecclestone veio humildemente em seus passinhos curtos e rápidos até a classe econômica, me encontrou, perguntou se eu queria a entrevista naquela hora, eu disse que ainda faltavam uns 15 minutos para o programa entrar no ar, e 15 minutos depois Bernie voltou, com os mesmos passinhos curtos e rápidos, sentou-se ao meu lado, respondeu tudo, dava para notar nos seus olhos e no tom de sua voz a dor enorme pela perda de Ayrton, não seria exagero nenhum dizer que ele se sentia culpado por alguma coisa, mesmo não tendo culpa de nada.

Bernie é um velhinho legal.

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