NÃO TÔ NEM AÍ – 04/12/2003

É bom ter uma vida normal. Jacques Villeneuve está prestes a encerrar sua carreira e não está nem aí. Após longo e tenebroso inverno, o canadense rompeu o silêncio nos últimos dias para, primeiro, desancar seus desafetos, David Richards à frente. Depois, tratou de mostrar ao mundo que a F-1 não é o centro do universo, como acreditam muitos dos que dela vivem, deixando claro que abandonar a categoria não vai lhe fazer mal algum, antes pelo contrário. Por ser um sujeito normal, Villeneuve faz outras coisas além de testar, correr e ficar de mau humor.

Ele toca guitarra e violão, por exemplo. E estuda música. Lê. Pratica esportes de inverno e quem já o viu rampa abaixo nas principais estações de esqui da Europa garante que entende do riscado. Também tem um bar & restaurante dos mais divertidos, o New Town, na Crescent, a rua mais animada de Montreal. Anda de moto, namora cantoras e bailarinas, troca os hotéis cinco estrelas pelo próprio motorhome, usa tênis velho e camiseta, pinta o cabelo de amarelo e roxo e no seu site oficial, em vez de comentários sobre circuitos ou balelas sobre carros, há indicações de livros e CDs.

Por isso que Jacques garante se sentir “confortável” com o que chama de “possibilidade muito forte” de parar de correr. Pelo menos na F-1. “Se eu quiser guiar, compro uma pista e vou correr com os amigos”, disse. Dinheiro para isso, tem. Amigos, também. Villeneuve cultiva amizades fora da F-1. A maioria dos pilotos nem sabe o que quer dizer a palavra. “A F-1 não é para se fazer amigos”, disse um outro dia.

Villeneuve falou também que uma parte dele não quer voltar, que não vai perder nada e que continuará fazendo tudo que sempre fez. E assegurou que jamais pagaria para correr, muito menos na Jaguar, que pediu cinco milhões de pacotes verdes pelo segundo cockpit e acabou arranjando quinze junto com um garoto mal saído das fraldas.

Fico imaginando a reação de outros pilotos que estão há muito tempo na F-1 diante de uma situação dessas, ficar sem carro, perder a equipe que montou, ver o passado jogado no lixo. A maioria não sabe distinguir uma viola de um banjo, ou um oboé de um apito. Enquanto servem para a F-1, é só nela que pensam e falam, com raríssimas exceções. Por isso, quando a brincadeira acaba, perdem o chão, não se conformam, caem no ostracismo e alguns continuam circulando pelos autódromos como ectoplasmas de boné.

Sorte de Villeneuve que ele tem seus discos e livros, sua guitarra e seus esquis. A vida não se resume a uma pista e a um carro de corrida. Ele sabe disso. Os outros, não.

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