O RACHA MIOU – 19/12/2003

Se tem um cara que apita nessa Fórmula 1 é Luca di Montezemolo, o presidente da Ferrari. Foi só quando ele decidiu falar em nome da GPWC, entidade formada para defender os interesses das montadoras na categoria, que a ameaça de um racha se tornou concreta. Afinal, ninguém imagina a F-1 sem a Ferrari. E se o time italiano estava disposto a apoiar um novo campeonato, era melhor levar o grupo a sério. Em agosto, Montezemolo deu um ultimato: ou as coisas se ajeitavam até dezembro, ou a nova série sairia do papel para as pistas e a F-1, como se conhece, viraria um mico dos mais indesejáveis. Um mero nome, um campeonato de corridas sem carros.

Max Mosley, presidente da FIA, bem que tentou desqualificar as pretensões das fábricas com o discurso do “Esporte versus Mercado”. Em resumo, o dirigente pregava que as montadoras viam na F-1 uma mera ferramenta de marketing, da qual disporiam enquanto isso fosse interessante para suas vendas. Ao sabor dos resultados, poderiam descartá-la sem aviso prévio.

Em outras palavras: a indústria não seria um aliado confiável do esporte por não se comprometer com ele, e sim com seus balanços anuais. Daí a defesa intransigente do que Mosley chama de equipes independentes, que nasceram no e vivem do esporte.

O discurso é bonito e tem um fundo de verdade quando resvala no discutível comprometimento de uma empresa com um esporte, mas soa ingênuo nos dias de hoje. Do mesmo jeito que é impossível pensar numa F-1 sem a Ferrari, pelo que ela representa para o mundo das corridas, não dá para acreditar que um campeonato de automóveis de alto nível tecnológico e custos assombrosos se sustente sem o lastro financeiro aportado pelas montadoras.

As equipes independentes, para desgosto de Mosley e dos mais nostálgicos, estão condenadas à morte ou à condição de meras participantes, preenchedoras de grid. A hora é mesmo das fábricas, que controlam a fatia da F-1 que importa: Ferrari, McLaren, Williams, Renault, Toyota, Jaguar e BAR. Sauber, Minardi e Jordan são sobreviventes. A equipe suíça ainda tem a parceria da Ferrari que a ampara tecnicamente, além de patrocinadores fortes e estatais como a Petronas, imunes às intempéries da economia global. As outras duas vivem de caridade, sabe-se lá até quando.

É por isso que, apesar de um aparente confronto, os últimos meses foram reservados a intensas negociações cujo objetivo era salvar a F-1 de uma cisão. O racha não interessaria a ninguém. E por trás de tudo esteve, como sempre, Bernie Ecclestone.

O diminuto, em estatura, dirigente é um gigante quando se fala de negócios. E não se deixou levar, em nenhum momento, nem pela postura quixotesca de Mosley, nem pelos rosnados ameaçadores das fábricas. Tratou de costurar o acordo silencioso firmado nesta semana entre a GPWC e os bancos que detinham 75% da holding que controla a F-1, herdeiros da falência do grupo alemão de mídia Kirch — a quem Bernie vendera o controle financeiro da categoria alguns anos atrás, embora nunca tenha cedido o controle político.

As montadoras conseguiram o que pleiteavam: mais dinheiro na partilha das receitas geradas pelo Mundial. Os bancos, que não têm o menor interesse em administrar algo tão complexo como a F-1, nunca se prepararam para isso e só entraram na história porque a Kirch quebrou, vão recuperar em pouco tempo o que gastaram financiando a empresa alemã. Bernie continuará no comando, já que as próprias fábricas entenderam que é preciso alguém como ele para manter a situação sob controle. O prazo dado por Montezemolo, dezembro, foi cumprido.

E todos ficaram felizes. A F-1 continuará sendo F-1. Um novo Pacto da Concórdia, o contrato que rege todas as relações comerciais entre organizadores (FIA e FOM) e equipes, será concebido e assinado com validade a partir de 2008 (o atual expira no final de 2007). O racha miou. Sem muito estardalhaço, como convém.

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