RESOLUÇÕES DE ANO-NOVO – 26/12/2003

Aprendi a gostar de ler com gibis na década de 70. Consumi vorazmente tudo que a Abril publicava e embora tenha enormes restrições, hoje, a todos os personagens de Walt Disney (existiria no mundo biltre maior do que Tio Patinhas e sua ganância?), não nego que muita coisa absorvi. Criança engole tudo. Como estratégia de disseminação do jeito americano de viver, é preciso admitir que gibis, filmes e similares são ferramentas muito eficientes.

Uma dessas bobagens adquiridas foram as resoluções de Ano Novo. Assim foi traduzido, assim aprendi: todo fim de ano devemos tomar nossas resoluções, era isso que faziam o Pato Donald e seus sobrinhos, ano após ano, gibi após gibi. Que eu nem chamava de gibi, mas de revistinha. O pato decidia não mais brigar com o primo sortudo, não pedir mais aumento ao tio sovina, e assim o mundo ia entrando nos eixos, corrigindo suas imperfeições.

O mundo e a vida são muito imperfeitos e as tais resoluções por mim tomadas nunca foram cumpridas integralmente, embora eu sempre as tomasse, ficando com a sensação de alívio de ao menos ter identificado necessidades e prioridades para os próximos doze meses que estavam chegando sob um número diferente, mil e novecentos e alguma coisa. Eu tinha sete, oito anos, e já me preocupava em fazer planos para o futuro próximo. Era um sábio.

Mas o tempo passa, e há muito deixei de ler revistinhas e de tomar resoluções de Ano-Novo, a vida mostra que fazer muitos e grandes planos não é algo que funciona tão bem assim, quando eles não se concretizam tendemos a nos frustrar, e para ser sincero, quem consegue planejar alguma coisa atualmente para mais do que uma semana, duas?

Não sei sequer o que vou fazer no ano que começa daqui a alguns dias, é possível que prossiga nas corridas, talvez não, muita coisa já não depende de mim, propostas e contratos estão por aí esperando alguém decidir e assinar, e às vésperas dos meus 40 anos continuo sendo o que sempre fui, um mero escrevinhador cujos caminhos foram se desviando das minhas resoluções tomadas na infância e que nunca sabe como será o ano que vem, sabe apenas que o ano vem e que é preciso vivê-lo, como todos os anos.

Por esses dias passei com meus filhos diante da casa onde nasci, ela resiste corajosa e intocada em meio a prédios de luxo, e não sei por quê aquilo me tocou. O dono achou estranho aqueles três parados na calçada, saiu à porta, ficou emocionado quando eu contei minha breve história, mora lá há mais de 30 anos e disse que nunca vai sair, nem vender, achei ótimo, meu marco zero está protegido, isso deve ter algum sentido.

Fiquei de voltar e levar uma foto de quando éramos nós que vivíamos lá, e a vida era boa e simples.

Naquela casinha geminada de um lado e com um corredor onde jogava bola do outro dei meus primeiros passos e comecei a traçar meu caminho, e é o caminho que importa, não o destino, creio ser este um ditado chinês, os bons ditados são chineses, portanto não me preocupo com o que farei no ano que vem. Em 2003 olhei muito para trás, vi que pouco fiz e que ainda há muito a ser feito, é preciso me apressar, por isso é um bom momento para retomar o hábito das resoluções. Aconteça o que acontecer, algumas coisas farei, sim, no ano novo. A lista é enorme, inclui a árvore e o livro, mas em resumo tentarei apenas ser uma pessoa melhor.

É o que todos temos de tentar fazer. Feliz 2004.

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