SABER A HORA – 05/12/2003

De tudo que li, vi e ouvi sobre a primeira experiência de Nelsinho Piquet na F-1, fico com uma frase: “Não estou pronto para a F-1”. Foi ele que disse. É o que basta.

Tempos de volta, rodadas, comparações com Nico Rosberg, nada disso importa. A Williams, quando e se tiver de escolher um dos dois como piloto de testes, vai avaliar outras coisas. As perguntas que o piloto fez nos três dias, por exemplo. Suas dúvidas e interesses específicos. As informações que trouxe da pista. As respostas a questões básicas feitas pelos engenheiros. E alguns itens subjetivos e especulativos, como comportamento, profissionalismo, atitude, capacidade de comercialização.

A frase de Nelsinho faz parte desse balaio. Ao admitir que não se sente pronto, o garoto foi honesto e deixou de lado a autoconfiança que se espera quando se trata de um Piquet. É ótimo. Depois que o pai colocou o carro na frente dos bois, falando de um contrato ainda não-assinado, era preciso alguém com os pés no chão para mostrar que não era bem assim.

Pode até haver um esboço de contrato, nisso não creio que Nelson pai tenha mentido, e é algo quase padrão hoje, equipes e empresários tentam amarrar seus possíveis futuros pupilos por todas as pontas. Mas, do jeito que Piquet falou, ficou a impressão de que estava tudo feito e assinado, e não era o caso. Criou uma expectativa falsa e manchetes barulhentas. Fez espuma antes do tempo.

Nelsinho sentiu que para um garoto de 18 anos um dia e meio é pouco para se considerar piloto de F-1. De fato é. Ele contou que ficou até assustado quando entrou no carro pela primeira vez. Não com a velocidade, a freada, a aderência. Mas com a tecnologia.

O volante da Williams tem 18 botões, fora as borboletas das marchas e a manopla da embreagem. Cada um dos cinco comandos que ficam na parte de baixo tem seis posições diferentes. Na escola eu aprendi a calcular o número de combinações possíveis para uma situação dessas, mas esqueci. Acho que isso se chamava fatorial, nunca achei que fosse precisar um dia e apaguei do cérebro. Vou chutar: acho que dá 720. Imagine pilotar com 720 possibilidades de regular o carro e tendo ainda 13 botões para apertar, cada um com uma função.

Tem quem, ainda assim, considere os carros de F-1 fáceis de dirigir. Esquecem-se, também, da demanda física, notada por Nelsinho, um adolescente, ainda. Ele também chamou a atenção para isso, que não tem preparo para ficar quase duas horas guiando aquele negócio.

Assim, concluo que o pequeno Piquet começou bem. Chegou, olhou, tateou, experimentou, mostrou alguma coisa mas, sobretudo, fez seu próprio diagnóstico. Na vida, é importante saber a hora certa de dar determinados passos. Quando eu tinha 18 anos não sabia a hora de nada, muito menos para onde meus passos deveriam me levar. Continuo não sabendo.

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