ELITE NÃO TEM CHARME – 16/12/2004

Nos últimos dez anos, guardei e arquivei, com rigores de funcionário de cartório, todas as folhas de cronometragem e todos os press-releases de absolutamente todos os GPs de F-1. Quando comecei tal empreitada, em 1995, ainda se guardava papel velho, pensando na eventualidade de ter de consultar alguma coisa algum dia.

Mas essa papelada toda começou a tomar muito espaço, e como nos últimos dez anos não consultei quase nada, me deu cinco minutos, como diz minha mãe, e resolvi destruir esse arquivo morto. Ecologicamente correto que sou, no entanto, achei por bem utilizar os versos das folhas em branco, milhares delas, na minha impressora. Chama-se a isso de reciclagem. Para mim é economia, mesmo. Sabe quanto custa um pacote de folhas tamanho A4? Pois é. A partir de agora, tudo que sair impresso de meu escritório terá no verso declarações de Ukyo Katayama ou Damon Hill, timbre da Williams-Renault, da Pacific Racing, ou da Tyrrell-Yamaha.

E até que tem sido divertido reler alguns desses comunicados de imprensa, e mesmo ver alguns resultados de treinos e corridas. Primeiro, para constatar quanto a F-1 mudou em dez anos. Na forma, porque o conteúdo das declarações de pilotos e chefes de equipe é sempre o mesmo. Quem anda na frente elogia tudo, dos parafusos aos mecânicos, quem anda atrás inventa desculpas, responsabiliza o asfalto, ou os pneus, ou o tráfego.

Tenho às mãos, por exemplo, o resultado do segundo treino classificatório para o GP de San Marino de 1995. Dos 26 pilotos que foram para a pista em Imola naquele dia, só Schumacher, Coulthard e Barrichello estarão no grid de Melbourne abrindo a temporada do ano que vem. Alguns continuam em atividade, seja como piloto de testes, seja em outras categorias, como Domenico Schiattarella, Jean Alesi, Johnny Herbert, Olivier Panis, Heinz-Harald Frentzen e Luca Badoer. Outros sumiram na bruma do tempo, casos de Andrea Montermini, Taki Inoue, Gianni Morbidelli, Bertrand Gachot. Outros tantos pararam de vez, a exemplo de Pedro Paulo Diniz, Aguri Suzuki, Gerhard Berger, Eddie Irvine, Nigel Mansell — que corria na McLaren, lembra? E tem uma turma que ainda procura emprego, como Mika Salo, Jos Verstappen e Roberto Moreno.

O mais impressionante, no entanto, é a quantidade de equipes que já não existem mais: das 13 que alinharam para aquela corrida, nada menos do que sete desapareceram — Benetton, Ligier, Tyrrell, Footwork, Simtek, Pacific e Forti Corse. Sobreviveram Williams, Ferrari, Jordan, Sauber, McLaren e Minardi.

No cronômetro, a distância dos primeiros para os últimos era ainda mais abissal do que a que separa hoje Ferrari de Minardi. Coisa de 10, 15 segundos por volta, dependendo da pista. A F-1, em dez anos, melhorou tecnicamente, disso não há dúvidas, e se elitizou. Só que elite demais, na maioria das vezes, não tem graça nenhuma. Elite não tem charme.

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