TRIBUTO A UM CRIADOR – 09/12/2004

Rigoberto Soler morreu no mês passado. Não tenho detalhes, idade, “causa mortis”, como estava, como não estava. Sei apenas quem era Rigoberto Soler e o que fez, e sei que pouca gente sabe, e sei também que ele merece muito mais do que meia-dúzia de linhas de um colunista obscuro como eu.

Rigoberto Soler foi o criador do Uirapuru. Engenheiro espanhol, radicou-se no Brasil, trabalhou na Vemag e na Willys e foi parar na Brasinca, que fazia carrocerias de caminhões e ônibus. Lá projetou o primeiro carro GT brasileiro, que de tão soberbo e sofisticado, desde a sua concepção, poderia ser hoje a versão tropical do time de marcas famosas, soberbas e sofisticadas que tem Corvette, Ferrari, Jaguar, Porsche, Lamborghini, Maserati e algumas outras formando o panteão daquilo que se convencionou chamar de carros de sonhos.

Soler chegou até a projetar um F-1, sob encomenda da Matra, quando já trabalhava na FEI, a Faculdade de Engenharia Industrial — onde lecionou. Um protótipo foi feito, mas a Matra, empresa francesa mais ligada à indústria bélica que à automobilística, acabou descontinuando seu programa de corridas.

O Uirapuru foi o primeiro automóvel esportivo nacional a usar o conceito de monobloco, feito em chapa de aço, não fibra, e estudado em túnel de vento — do Centro Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos. Era um puro-sangue, motor Chevrolet 4.200 cc, inovador, belo e copiado.

(O Jensen inglês, raridade disputada a tapa na Europa, é um xerox do carro da Brasinca. Ninguém sabe direito qual nasceu antes. Pelo cronologia oficial, o Jensen foi lançado dois anos depois do Brasinca 4.200 GT, primeiro nome do Uirapuru. Fico com o nosso, entre outras coisas porque é mais estiloso, marcante, mais tudo.)

Soler levava a sério o conceito de GT, ou Grã-turismo, “win on Sunday, drive on Monday”, como dizia, um carro para ganhar uma corrida no domingo e ser dirigido nas ruas no dia seguinte. Um cupê formidável, uma obra-prima de estilo e engenharia. Seu chassi é uma escultura, o painel de jacarandá dá vontade de chorar. Uirapuru é o nome de um pássaro que canta uma vez por ano, e quando seu canto soa, a mata toda se cala para ouvi-lo. Imagino que há 40 anos, na rua, os outros carros se calavam para vê-lo passar.

Fizeram 76 unidades, entre 1965 e 1967. Em 1966 a Brasinca desistiu de sua produção e Soler montou uma empresa, a STV (Sociedade Técnica de Veículos), para seguir sonhando. Muitas lendas cercam o Uirapuru, como a do primeiro comprador, da cidade de Quaraí, no Rio Grande do Sul, que esperou o carro sair da fábrica, pagou adiantado, mandou um telegrama para a Brasinca alguns dias depois elogiando-o e sumiu. Ou a do Gavião, exemplar único, uma perua feita para a Polícia Rodoviária. Foi construída, há registros fotográficos, tinha espaço até para engatar metralhadora na frente e era blindado. Ao que parece, serviu num posto policial da Via Anchieta, mas um dia desapareceu. O Uirapuru foi para as pistas, também, e ganhou o campeonato paulista de Esportes, Protótipos e GT em 1966.

Será que existem, ainda, o Gavião, o carro de corrida, o primeiro dos Uirapurus fabricados? Não se sabe. Soler morreu no mês passado, mas a tênue possibilidade de o Brasil ter sua Ferrari (na boa: o Uirapuru dá de dez em qualquer Ferrari de rua), essa durou apenas três anos. Sobraram poucos exemplares desse sonho, mais um, que quase não passou disso, um sonho. Que dure para sempre.

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