ERROU, MESMO – 25/03/2005

Há muita fantasia quando se discute o que está acontecendo/vai acontecer com a Ferrari neste ano. A palavra que mais li e ouvi foi “arrogância”. A Ferrari teria sido vítima de sua soberba, menosprezou os adversários, fez pouco caso de todo mundo.

Fico imaginando a cena arrogante. Todt, Brawn, Montezemolo e Schumacher diante de uma garrafa de Pierre Ferrand 1914 (750 eurinhos) para comemorar o hepta, Montecristos para todos, e a decisão tomada: “Esses caras são uns merdas, nunca foi tão fácil”, manda Ross. “Hu-hu-hu!”, devolve Jean fazendo biquinho. “Ragazzi, ragazzi…”, sorri Luca balançando a taça bojuda, ar de marota reprovação aos chistes dos colegas. Michael refestela-se numa poltrona de couro marrom e dá uma baforada: “Guys, nem precisa fazer outro carro, sem pressa, eu começo com esse aí mesmo no ano que vem, se precisar faz outro. Mas do jeito que essa turma é lerda…”

Risos gerais.

Sim, isso seria bem arrogante. E engraçado. Mas a vida real não é assim. Essas coisas são pensadas, e muito bem pensadas. Afinal, estão em jogo quase US$ 500 milhões de um orçamento que só se justifica quando resulta em vitória.

A Ferrari avaliou mal a situação, e aí não há nada de arrogância. É erro mesmo. Tinha um carro que no ano passado ganhou 15 das 18 corridas. Ruim não era. Começar temporadas com carros de anos anteriores já havia sido feito duas vezes e deu muito certo. Por que não outra vez? É bom lembrar que depois do susto de 2003 foi construído, sim, um carro novo que estreou na primeira corrida. Não houve arrogância alguma ali, e sim até uma dose de humildade.

Fazer um carro em tempo hábil é óbvio que a Ferrari pode. Não houve atraso algum, foi opção. E optar por um modelo antigo não tem nada de arrogante, é cautela mesmo, para evitar os milhões de problemas que sempre ocorrem nas provas do outro lado do mundo. As outras equipes não fazem isso porque não têm muito a perder. Se foram esmagadas no ano anterior, para que insistir com carros antigos? O que vier é lucro. Por isso ninguém, exceto a Ferrari, usa desse expediente. A Ferrari pode.

Neste ano, no entanto, o regulamento mudou muito. Carros de F-1 são muito sensíveis a qualquer coisinha. Sobe um grau a temperatura no asfalto, muda o comportamento dos pneus. O vento bate de cá, vem tempo. De lá, perde. Olhou feio e mostrou a língua para o carro, ele chora. Imagine então o quanto muda uma máquina dessas quando se ergue uma asa cinco centímetros, ou quando se puxa outra 15 para a frente.

É isso que ninguém entende: como é que a Ferrari pôde acreditar que com mudanças tão radicais (acrescentem-se os pneus; para pneus mais duros, suspensões diferentes) seu carro seria tão bom quanto era? Erro de avaliação. O time superestimou o que tinha nas mãos. E não contava com o salto de qualidade de uma equipe em particular, a Renault.

Sim, porque se a Renault só evoluísse um pouquinho, como McLaren e Williams, até dava para aguentar quatro corridas com um carro meia-boca. Na pior das hipóteses, as três dividiriam vitórias, diluindo pontos, e a Ferrari, devagarzinho, chegaria a Barcelona perto de todo mundo, com um novo carro estalando de bom, testado à exaustão.

Não aconteceu nada disso. A Renault ganhou as duas primeiras e deve ganhar as próximas. Virou uma Ferrari. Para piorar as coisas para Maranello, do nada surgiram as improváveis Red Bull e Toyota. E todos os planos ruíram. Tira o carro do forno e joga na pista. Seja o que os deuses quiserem.

Não tenho dúvidas de que a Ferrari pode transformar, em alguns GPs, essa F2005 num carro vencedor. Nada leva a crer que vai ser diferente, exceto uma coisa: o fator humano. Essa turma toda que toca a equipe não sabe direito o que é perder. Esqueceu o que é uma crise. Não sabe lidar com adversidades. E isso vai do porteiro aos pilotos.

Saber como a Ferrari vai encarar sua própria inferioridade, como vai reagir às críticas, como vai administrar as próximas e inevitáveis derrotas é a grande dúvida do ano. Muito mais do que saber se o carro novo vai ser bom ou não. Isso é secundário. Ele vai ser tão bom quanto a capacidade da Ferrari de não entrar em parafuso.

Por isso o ano vai ser tão melhor do que os últimos.

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