ANTES TARDE DO QUE NUNCA – 22/11/2007

Vou falar de pneus. Tem coisa mais sem graça?

Aos olhos de quem vê de fora, nenhuma. Um disco de borracha banal e corriqueiro, do qual só nos lembramos quando fura. Coisa mais sem graça, pneu.

Mas ele é o maior companheiro de um piloto. Rigorosamente tudo que um carro de corrida carrega em suas entranhas precisa de um intermediário para transformar tecnologia em velocidade, para jogar no asfalto as invencionices de engenheiros e projetistas que passam dias e noites quebrando a cabeça para fazer uma máquina andar mais rápido. O pneu é o elo entre o mundo virtual e o mundo real das pistas.

Desde 1998, a F-1 usa pneus que não existem no mundo real. Riscados, “grooved”, como se diz — não servem para nenhum carro de rua. Os clássicos pneus de competição lisos, “slick”, foram aposentados em nome da segurança no final de 1997.

A teoria dos dirigentes, preocupados com a escalada da performance dos carros que parecia fora de controle diante de tantas novidades eletrônicas e aerodinâmicas, era simples de entender: menor área de contato com o piso graças às ranhuras, menor velocidade nas curvas, menos acidentes.

O primeiro a se insurgir contra os pneus que passariam a ser exclusivos da F-1 (nenhuma categoria adotou esse modelo) foi Jacques Villeneuve, o último campeão mundial da “era slick”.

Jacques, na época, disse que os pneus com ranhuras iriam acabar com as ultrapassagens. A teoria também era simples de compreender: menos contato com o piso, menor aderência mecânica e, consequentemente, redução da margem para assumir riscos. Era colocar um carro com esses pneus fora do traçado ideal, na parte suja, para escorregar, desequilibrar as freadas, perder o controle. Ninguém arriscaria mais nada. As corridas seriam transformadas em procissões intermináveis, um carro atrás do outro, dependentes crônicos de suas asinhas e asonas.

Bidu. Foi exatamente o que aconteceu.

É verdade que a borracha pelada também nunca se prestou a um automóvel urbano, o que derrubaria a tese de que tudo que a F-1 inventa precisa ter alguma aplicação na indústria automobilística. Isso, na prática, não vale para os pneus, cuja tecnologia de produção e desempenho para carros de rua é mais do que desenvolvida.

Mas os “slicks” eram a essência secular da competição: feitos para grudar no chão, despejar a potência dos motores e seus acessórios no solo sem subterfúgios. Não foi uma boa idéia mexer neles. Desde que passaram a ser usados, os pneus lisos e pegajosos ampliaram os limites dos pilotos, alargaram as pistas, esticaram as zonas de frenagem.

A temporada de 2007 foi a décima da F-1 com os pneus raiados. No início do mês que vem, as equipes terão um dia para testar “slicks” de novo em Jerez de la Frontera. É a primeira experiência da Bridgestone, baseada no que se usa na GP2, para levar adiante a idéia é trazê-los de volta em 2009.

De tudo que se discutiu nos últimos anos sobre regulamento, é a única medida que vai mudar alguma coisa na categoria.

Antes tarde do que nunca.

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