O QUE A MORTE ENSINA – 14/12/2007

Sempre que morre alguém em corridas a tendência é achar um assassino. Foi assim com Senna em Imola/1994: o muro, a área de escape, o asfalto, a curva, a suspensão, a pressão dos pneus, a coluna de direção soldada, Patrick Head, Frank Williams.

Ayrton morreu porque a barra de suspensão entrou por sua viseira. Foi o desfecho de uma sequência de fatos que teve, isso sim, personagens como o muro, a área de escape, o asfalto, a curva, a suspensão, a pressão dos pneus, a coluna de direção soldada, Patrick Head, Frank Williams… Ninguém morre numa corrida por apenas um fator. É como acidente de avião. Uma sequência de fatos que redunda em algo grave. Ou não.

Escapar na Subida do Café acelerando, como aconteceu com Rafael Sperafico domingo passado em Interlagos, não é raro. É uma curva para a esquerda, inclinada, na qual os carros tendem a escapar para o lado de fora por conta da aceleração e das forças que agem sobre eles.

Ruim é ricochetear na barreira de pneus e voltar para a pista. Às vezes o carro apenas “lambe” os pneus e por lá fica. Em outras, pode até voltar, e se não tiver ninguém atrás, nada acontece. Ocorre que era uma relargada, e havia um monte de gente subindo a ladeira, todos de motores cheios, um espremendo o outro, como sempre acontece nas provas da Stock e da Stock Light.

Poderia ter sido uma batida banal se Rafael estivesse em último, ou se todos conseguissem desviar. Ele não se machucaria, porque o impacto se deu do lado do “passageiro”. Mas Renato Russo, que vinha atrás, teve pouquíssimo tempo para reagir e bateu acelerando, num ângulo de 90 graus. Bem onde fica o piloto, no meio do carro. Um pouco mais para a frente, um pouco mais para trás, talvez não resultasse numa fatalidade.

A Stock não é assassina, nem a Subida do Café, nem Renato Russo, nem Interlagos, nem ninguém. Mas acidentes ensinam e é preciso aprender com eles. No caso deste, há mais a se estudar além de sua dinâmica, causas e consequências.

É óbvia e indispensável a discussão sobre a curva. Qualquer autódromo do mundo pode ser melhorado. Os pneus não funcionam lá? Que se tirem os pneus, que se aproxime o muro numa configuração de oval, que se analise o caso com a frieza devida e se façam as obras necessárias.

Assim como é óbvia e indispensável a discussão sobre a segurança dessas gaiolas da Stock, desprotegidas por carenagens frágeis, chassis envelhecidos e nunca submetidos a testes de resistência. Preocupação que a Confederação Brasileira de Automobilismo deveria ter e nunca teve. São carros pesados e mal construídos, resistem a certos impactos, mas não a todos. Não há célula de sobrevivência propriamente dita. Há proteção de tubos de aço, mas ela é claramente insuficiente. Já que há tanta grana rolando na Stock e em seus filhotes, a Light, a Júnior e, no ano que vem, as Pick-ups (que usará o mesmo chassi tubular), que se gaste um pouco do que entra para dar segurança aos pilotos.

Mas há que se refletir, também e principalmente, sobre a qualidade dos pilotos que guiam esses carros. Como o Brasil não tem mais categoria-escola, muitos saem direto do kart, ou do kart indoor, educados em bater uns nos outros para fazer ultrapassagens. Alguns são muito jovens, inexperientes, agressivos em excesso. Sperafico levou um toque e por isso bateu nos pneus. A Stock (e a Light) é um jogo de bate-bate que, na maioria das vezes, não dá em nada além de carenagens rachadas e pilotos que não sabem ultrapassar fazendo beicinho.

Na maioria das vezes. Não em todas. Corrida de carro é uma brincadeira perigosa. E por isso não pode ser encarada como brincadeira. Que a morte de Rafael Sperafico sirva de lição aos pilotos, portanto. São eles os que mais têm a aprender. São eles que devem decidir o que pretendem fazer de suas vidas e com as vidas dos outros.

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