RESPEITO É BOM – 20/12/2007

2007 não foi um bom ano para Ron Dennis. Talvez tenha sido o pior de seus mais de 40 militando no automobilismo. Normalmente acompanhado em textos da mídia especializada por adjetivos como “arrogante”, “prepotente”, “autoritário” e “antipático”, seu nome ganhou mais um aposto para segui-lo, ao menos por um tempo: “trapaceiro”.

O escândalo da espionagem envolvendo seu projetista e um ex-funcionário da Ferrari, que se arrastou por meses e culminou com um pedido público de desculpas da McLaren à “família da Fórmula 1”, arranhou muito sua imagem. Dennis, que nunca foi amado em paddock algum, mas sempre gozou da admiração e do respeito da tal “família” por tudo que realizou no mundo da velocidade, entrou para o rol dos vilões das pistas.

Restaurar a reputação construída em quatro décadas será sua tarefa em 2008. Dennis errou, claro, ao não estancar a sangria de dados vindos da Ferrari assim que soube que Nigel Stepney começara a piar. Errou de novo ao tentar convencer a FIA e seus pares de que nada sabia, e de que ninguém na McLaren deu bola para o calhamaço de informações que chegavam num fluxo sem fim. Foi negligente e, possivelmente, se deixou seduzir pela malandragem alheia que o beneficiava. A tentação de conhecer os segredos dos rivais foi maior.

Não creio, porém, que seja o caso de levá-lo aos tribunais da Inquisição. Entre outros motivos, porque é senso-comum que todas as equipes e todos os técnicos, engenheiros, pilotos e mecânicos buscam informações nos boxes adversários com freqüência muito maior do que gostariam os puristas. Espionagem não é novidade na F-1, nem em qualquer outra categoria. A diferença entre casos que nunca vieram à tona e esse, que quase levou a McLaren ao fundo do poço, é que pegaram o ladrão com a boca na botija.
E o culpado primordial, no fim das contas, vestia vermelho, e não prata.

Mas as razões que recomendam cautela diante do instintivo apedrejamento de Ron Dennis vão além do fato de que ele não é o único a bisbilhotar o vizinho. Elas remetem ao seu passado. Dennis tem uma história bonita no automobilismo. Com 20 anos, começou a trabalhar na Cooper. E aos 21, era mecânico de Jack Brabham. Começou a vida metendo a mão na graxa e ralou muito até comprar a McLaren de Teddy Meyer em 1980, com a ajuda da Philip Morris — isso, dez anos depois da morte do fundador da equipe, o neo-zelandês Bruce McLaren, num acidente em Goodwood.

Ron tinha apenas 33 anos, então. Em pouco tempo, transformou o time numa das maiores potências do esporte motorizado do planeta. E se é verdade que não gosta de falar publicamente da época em que apertava parafusos, nunca deixou o passado de lado, no íntimo. Exemplo disso é que o primeiro carro que Bruce pilotou na Nova Zelândia, na década de 50 — um Austin Seven de 750 cc —, hoje repousa nos salões “high-tech” da sede da equipe, em Woking. Ron não sossegou enquanto não achou o carro, para comprar e restaurar. É uma homenagem silenciosa e pouco difundida a quem tudo começou.

Dennis conhece seu “métier”. Entende de carros, de corridas e de pilotos. E gosta de disputas. Parece até ter um prazer sádico de ver seus pupilos se trucidarem. Como fez com Senna e Prost nos anos 80, Raikkonen e Montoya há alguns anos, Hamilton e Alonso em 2007.

A F-1 deve tais duelos a ele. Não é pouca coisa.

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