ABAIXO A FEIÚRA! – 21/11/2008

O primeiro carro mais ou menos configurado para 2009 que apareceu nos testes desta semana em Barcelona foi o da BMW Sauber. Na asa dianteira, mais larga e retilínea, meteram uma caixa de sapatos em cada extremidade. Ficou parecendo uma colheitadeira de soja. Já a asa traseira, estreita e alta, harmoniza tanto com um carro de corrida quanto uma antena parabólica no Louvre. O automóvel ficou medonho.

O problema da F-1 é que quem desenha os carros são projetistas e engenheiros, pautados por um túnel de vento e cercados de computadores num ambiente em que nem mosca faz zum-zum. Estava na hora de contratarem designers de verdade, com estudos em escolas de belas-artes, umas canas na cabeça e um mínimo de criatividade. Gente que usa brinco, tatuagem e rabo de cavalo, assiste a mostras de cinema e visita museus. Gente que poderia se preocupar não só com a sensualidade das linhas gerais dos carros como, também, com as pinturas que eles levariam em suas carenagens.

Está tudo feio, brega e cafona demais. No quesito pintura, basta olhar a Renault e a Toyota. Tem algo mais pavoroso? Nos projetos, então, melhor nem citar ninguém em especial. Nos últimos anos os projetistas enfiaram asas até no rabo dos pilotos, tudo em nome da “pressão aerodinâmica”.
Particularmente, quero que a pressão aerodinâmica vá para o inferno. O que a F-1 está precisando, urgente, é de uma milícia estética, um pequeno exército pronto para abater a feiúra a tiros de bazuca.

É impressionante como ninguém mais liga para a beleza dos carros. E o resultado desse mau-gosto crônico está no total desprezo dos torcedores pelos carros de uns bons carnavais para cá. Qual é o último que você se lembra de ter dito, à primeira olhada, “que puta carro lindo!”? Seja honesto: nenhum. Alguém é capaz de falar que a BMW Sauber do Kubica é bonita e marcante? Ou a Toro Rosso do Vettel?

Pois volte um pouco no tempo. E, agora, comece a listar as belezuras das pistas dos anos 70-80-90, para ficar só nas últimas décadas.

Pelos apelidos (nunca lembro direito as letras e números), lá vai a minha relação, sem nenhuma preocupação cronológica e carregando toda imprecisão que o bom torcedor traz embutida em imaginário: Lotus preta JPS do Emerson, Brabham branca de frente integral do Reutemann, Tyrrell azul Elf do Stewart, Ferrari do Villeneuve, Brabham Parmalat do Piquet, Jordan verde do De Cesaris, UOP Shadow do Jarier, Renault amarela do Jabouille, Copersucar do Wilsinho, as Ligier Gitanes azuis, o March laranja Beta do Brambilla, a Arrows dourada do Patrese, a Ferrari bico de pata do Mansell, o Benetton tubarão do John Barnard…

Ah, são tantos… E notem que os carros tinham nomes e apelidos — ou, pelo menos, algo que os identificasse, uma cor predominante, um patrocinador famoso, isso para não falar dos números, que hoje são invisíveis e, antigamente, faziam parte do visual de cada um.

Os carros eram amados e admirados, tinham personalidade e caráter, um ronco próprio, uma maneira especial de entrar e sair das curvas. Hoje são todos iguais, horrendos e com cara de nada. Por conta disso, as pessoas torcem só para os pilotos, que viraram todos celebridades cheias de frescura, e esquecem do essencial, as máquinas que eles guiam.

Sou mais os carros que os pilotos, sempre. E é por isso que não torço para ninguém.

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