JUNTANDO OS CACOS – 26/12/2008

Foi no dia 5 de dezembro que a F1 recebeu o baque da saída da Honda. Quase imediatamente começaram a surgir boatos aqui e ali sobre a sucessão da equipe. Apareceram listas de interessados com grupos que não existiam, dinheiro árabe, PAC, o diabo a quatro.

Na ocasião, Ross Brawn e Nick Fry, tentando mostrar algum otimismo, estabeleceram o Natal como prazo para resolver as coisas, arranjar um comprador, tocar a nau. Nesse período, de concreto, apenas David Richards veio a público para dar declarações genéricas, na linha “nunca desisti da F1”.

Também pipocou na área o nome de Carlos Slim, empresário mexicano, dono da Telmex e segundo homem mais rico do mundo em 2008, de acordo com a Forbes. Ele estaria disposto a aplicar um pouco do muito que tem na categoria – automobilismo para suas empresas não é propriamente uma novidade, já que a Telmex, gigante da telefonia mundial, investe bastante em patrocínios de equipes nos EUA e no México.

Bem, o Natal já passou, ninguém comprou a Honda e o assunto arrefeceu um pouco. Seja lá o que estiver sendo negociado, está sendo feito em silêncio, como costuma acontecer com grandes corporações. O fato é que a F1, e o automobilismo em geral, está juntando os cacos de seu mais violento “crash”, que neste final de ano não viu não só a Honda como também a Suzuki, a Subaru e a Audi cancelando operações nas pistas por conta da crise financeira internacional.

Os treinos de dezembro foram melancólicos, com pouquíssimos carros na pista e declarações isoladas de gente como Bernie Ecclestone, Max Mosley, Luca di Montezemolo e Flavio Briatore tentando achar um rumo. Fala-se de tudo um pouco, mas sem coordenação. É a história das medalhas do Bernie no lugar dos pontos, são as críticas do presidente da Ferrari aos “circuitos turísticos”, as sugestões do diretor da Renault para que os finais de semana de GP tenham duas, e não apenas uma corrida, e a cruzada do velho Max pela redução dos custos – nesse caso, pelo menos, saiu algo palpável, como a proibição dos testes e a ampliação da vida útil dos motores.

Ninguém sabe direito o que será o mundial do ano que vem. Com regras novas, que em tese exigiriam mais prática na pista e desenvolvimento do que o normal, as equipes se vêem diante da necessidade de gastar menos, o que significa treinar menos e desenvolver menos.

Muitos dos carros novos só sairão do forno no fim de janeiro, com pouco tempo de testes pela frente até a abertura do campeonato, na Austrália. O espólio da Honda continua sem dono, e se alguém vier a arrematá-lo, o tempo para colocar dois carros na pista será ainda mais escasso, por mais adiantado que o projeto de 2009 pudesse estar – se estava mesmo, já atrasou, porque faz 20 dias que ninguém liga os computadores da fábrica de Brackley.

Para os torcedores brasileiros, havia a perspectiva de até cinco pilotos disputando a temporada se acontecesse o milagre de Rubens Barrichello, Bruno Senna e Lucas di Grassi se encaixarem em algum lugar. O mais provável é que sejam só dois, mesmo, Felipe Massa e Nelsinho Piquet. Menos mal que o GP do Brasil está confirmado no calendário, o que é uma vitória diante da catástrofe das perdas das etapas da França e do Canadá, países bem mais ricos que não conseguiram viabilizar suas corridas.

A F1, como milhares de empresas, bancos, governos e indústrias, terá de se reinventar para sobreviver.
O mundo não vai acabar por causa do derretimento das finanças de araque que alimentaram por décadas um crescimento mentiroso e o enriquecimento fácil de tantas gentes e grupos, mas o susto foi grande, e ainda terá consequências.

Agora é hora de ser criativo e de trabalhar. E isso – trabalhar e ser criativo -, para alguns, assusta tanto quanto ver o dinheiro virtual desaparecendo nas bolsas. É uma exigência difícil e inesperada, a de mudar completamente o estilo de vida, a rotina, a atitude frente a dificuldades que nunca existiram.

Pode ser que a F1 melhore depois da crise. O mundo, também. Como dizia um amigo meu, o único jeito é seguir em frente, acelerando sempre.

Que tenham todos um ótimo 2009.

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