O QUASE-HERÓI – 07/11/2008

Quando terminou a corrida de Interlagos, domingo, os chiquérrimos VIPs instalados nos camarotes sobre os boxes perceberam Timo Glock voltando para a garagem da Toyota. Aboletaram-se no novo puxadinho do autódromo, a laje que substituiu as telhas que antes cobriam as garagens, e dispararam contra o alemão, aos berros, sua extensa lista de elogios aprendida no aconchego do lar, muitos deles com o dedo médio estirado, em atitude de revolta incontida.

Coisa típica de quem não entende patavina de nada. Àquela altura, os chiquérrimos revoltados só ‘entendiam‘ que Massa perdeu o título, e, se perdeu, alguém tinha de ser culpado. Do lado oposto, nas arquibancadas caras que ficam diante dos boxes, a multidão vaiava sonoramente o campeão. Dedo em riste, também. Aquele típico ódio de quem não sabe perder.

(Ainda bem que Felipe sabe, e soube. Foi de uma elegância ímpar depois da prova, e em todas as entrevistas no dia seguinte. O piloto não embarcou no oba-oba da véspera, nem na forçada depressão pós-GP. Impecável no comportamento, foi um verdadeiro esportista.)

Já na manhã de segunda-feira, em conversas aqui e ali com, digamos, “populares”, notei que Glock tinha sido alçado à condição de mais novo vilão do país. Porque “podia ter segurado o Hamilton”.
Porque “tirou o pé”. Porque “tem esquema”. Porque “deixou passar de propósito”. É curioso. As pessoas com quem falei, e de quem ouvi tais sandices, não pareciam preocupadas com Massa, propriamente. Mas, sim, com sua frustração pessoal de não poder comemorar uma conquista. Era como se Glock tivesse arrancado dessas pessoas, e não de Felipe, o título mundial. “Esse alemão filho da puta não deixou a gente ser campeão”, foi frase que também ouvi. “A gente” quem, cara-pálida?

Bem, fiz umas contas, depois da prova. E concluí que a Toyota foi a única equipe que acertou nas últimas voltas do GP do Brasil, ao não mandar seus pilotos para os boxes. Glock tentou, ao ficar na pista molhada com pneus “secos”, ganhar as posições de Vettel e Hamilton, que optaram por colocar pneus de chuva como todos os outros. Quase conseguiu.

Vejam: na volta 65, a anterior à parada de Hamilton, a diferença dele, que estava em quarto (resultado que lhe dava o título com alguma folga), para Glock, sexto, era de 19s741. Somei os tempos das voltas 66 a 71 de alguns pilotos, para saber quanto cada um gastou nesse período, a hora da chuva, até receber a bandeirada. Massa (que parou na 67): 511s140; Vettel (pit stop na 66): 520s013; Hamilton (também parou na 66): 521,445; Trulli (o outro que não parou): 520s596.

E Glock? Foi o mais rápido de todos. Sem parar, como seu companheiro de equipe, gastou 507s165. Por não ter parado, foi 14s280 mais rápido nessas seis voltas que Hamilton – que, repito, na 65ª tinha 19s741 de vantagem sobre o alemão. Lewis acabou recebendo a bandeirada 5s461 à frente de Glock. Timo descontou 14s280, fazendo voltas surpreendentemente boas. Exceto a última, já sem pneus e com muita água na pista.

Foi uma tentativa. Arriscada, é verdade, porque naquela chuva, e com aqueles pneus no osso e inadequados, ele poderia rodar, bater, se estrepar de verde-amarelo. Mas se segurou, ganhou posições e foi só mesmo na última volta que a chuva apertou e ele não teve como se manter à frente de Lewis. Nem de Vettel. Nem de Kubica, que era retardatário.

Por pouco mais de cinco segundos, Timo Glock não se tornou um herói brasileiro, aquele que chegaria à frente de Hamilton, impedindo seu título. Mas virou vilão. Porque, aqui, sempre tem de ter um culpado.

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