PEQUENA AVENTURA SOVIÉTICA – 28/11/2008

Minha meia dúzia de leitores sabe que de vez em quando eu me meto a acelerar carros de corrida antigos, para matar a saudade de um tempo que não vivi. Até julho, meu companheiro de aventuras foi um DKW 1963, eternizado como #96, número que escolhi para homenagear Norman Casari, um dos grandes dos anos 60/70. Foram seis anos na pista, mais de 50 corridas, um monte de troféus, nenhuma vitória, algumas quebras, enormes frustrações, imensas alegrias.

Mas ele chegou ao limite de desenvolvimento possível para um carro de 45 anos, e hoje repousa no Museu do Automobilismo Brasileiro em Passo Fundo (RS), sob os cuidados do colecionador Paulo Trevisan. Em meio a uma porção de carros famosos e históricos, o que é uma honra. Para ele e para mim…

As novas peripécias sobre rodas começaram sábado, com a estreia do meu novo carro velho em competições. Um Lada. O quê? Um Lada?, vão perguntar. Uai, o que tem? Um Lada, ora. Lada, aquele russo?, vão continuar perguntando. Não, aquele soviético, responderei.

É isso aí, soviético. Resolvi colocar na pista um carro que é clássico não só por sua trajetória automobilística, mas também por sua história geopolítica. O sedã Lada 2105, exportado para o Brasil entre 1991 e 1995 rebatizado como Laika, é um dos dez carros de maior produção em todos os tempos (li isso um dia desses), com 18,5 milhões de unidades fabricadas.

Fazem esse carro até hoje em Togliatti, uma cidade russa que recebeu o nome de famoso dirigente do Partido Comunista Italiano. Na época, início da década de 60, a Fiat vendeu à URSS uma fábrica inteira e o projeto completo do modelo 124, que acabaria dando origem ao “nosso” Laika.

Meu carrinho de corrida, portanto, foi montado por legítimos operários comunistas num tempo, não muito distante, em que o mundo era dividido em dois: EUA de um lado, URSS do outro — e os demais torcendo para ninguém apertar um botão vermelho numa maleta.

Correr de Lada não é uma total excentricidade, visto que esses carros ainda disputam corridas em países do Leste europeu e também na Alemanha. Há um campeonato específico para Ladas e Trabants, aquele da antiga Alemanha Oriental. E eles são fortes em ralis, também, especialmente na Hungria. Receitinha básica e eficiente: motor dianteiro, tração traseira, robusto e resistente, bom de “chão”, como a gente diz… Um brinquedinho interessante.

Apesar dessa longa história nas pistas do lado de lá do Atlântico, desconfio que nunca um Lada tinha pisado no asfalto de Interlagos antes, muito menos um Lada de competição. E o meu, que já tem até nome – Meianov, por causa do número pornográfico -, estreou bem. Os freios estavam ruins, mas ele foi até o fim, virando tempos bem aceitáveis, batendo nos 170 km/h de final e média de 110 km/h numa pista que não é exatamente de alta (a média de uma volta na F-1 é de cerca de 210 km/h, menos que o dobro; e digamos que um carrinho de F-1 custe um pouco mais que o dobro de um Lada…).

E assim começou uma nova historinha para este colunista-piloto. Afinal, escrevo sobre corridas. É bom experimentá-las de vez em quando.

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