A ERA DOS FUNDOS – 18/12/2009

Quando a associação das equipes de F-1, a Fota (singla em inglês para Formula One Teams Association), foi criada em setembro de 2008, eram seis as montadoras que queriam tomar conta do campeonato, dar um pé em Max Mosley, em Bernie Ecclestone, na FOM e na FIA juntas, assumir o controle da grana e do galinheiro e fazer do Mundial uma competição de marcas. Um time de respeito, sem dúvida. Algumas das maiores do mundo, a saber: Honda, Toyota, Renault, BMW, Mercedes e Ferrari.

Juntas, essas fábricas produziram, naquele ano, a nada desprezível quantidade de 19,2 milhões de automóveis. Em todo o planeta, no mesmo período, 69,5 milhões de carros saíram das fábricas de todos os continentes. O pessoal da F-1, portanto, foi responsável por quase 30% da produção mundial. Se alguém achava que eles não tinham cacife para peitar quem quisessem, é óbvio que esses números provam o contrário.

E foi aquele bafafá, ameaças daqui, retaliações dali, possibilidade de criação de uma categoria nova para mostrar a força das montadoras e enterrar quem não estivesse ao seu lado, e tal e coisa, e coisa e tal.

Um ano depois, sobraram duas, Mercedes e Ferrari. Os 19,2 milhões de automóveis caíram para pouco mais de 2 milhões, esmagadora maioria da lavra da Mercedes, já que a Ferrari produz pouco mais de 7.000 carros por ano. Honda, Toyota e BMW pularam do barco que pretendiam transformar em um Titanic inafundável. A Renault, na prática, fez o mesmo nesta semana. A equipe vai continuar existindo com esse nome por um tempo, mas agora é controlada por um fundo de investimento sediado em Luxemburgo de nome Genii, que tem à frente um certo Gerard Lopez.

Especula-se que 75% do time tenha sido vendido. Dificilmente a marca francesa será mantida depois de 2010, embora a Renault tenha assinado o Pacto da Concórdia até 2012. Vai ser uma questão de negociar a mudança de nome para o futuro próximo.

A F-1 voltou à era das independentes, é a impressão que se tem. Mosley não sobreviveu na presidência da FIA para ver suas profecias em relação às montadoras se realizarem. A Fota, agora, está cheia de caras novas. São investidores, aventureiros, milionários, governos, garagistas.

É uma volta aos anos 1970 e 1980 – de novo, a impressão que se tem. O que, em um primeiro momento, parece bom. Menos interferência de conselhos de administração de grandes corporações, gente menos comprometida com relatórios de vendas de automóveis, um quase admirável mundo novo.

Mas é só quase, mesmo. Porque a troca de montadoras pelos fundos de investimento obscuros, que administram receitas nebulosas e tomaram a F-1 de assalto, não inspira muita confiança. Pode ser que algumas dessas equipes estreantes consigam bons resultados, que seus novos donos tomem gosto pela coisa, que se transformem em organizações esportivamente respeitáveis.

Duvido, mas fica o benefício da dúvida. O fato é que nas mãos da indústria automobilística, a F-1 se mostrou frágil e vulnerável. Se dependesse delas, hoje, quantas equipes estariam no grid do Bahrein para abrir a temporada do ano que vem? O castelo de cartas desabou ao primeiro sopro de crise, e derrubou gente grade.

São outros tempos. Que sejam melhores, mais divertidos e, por que não sonhar?, simples e ingênuos. A resposta, como sempre, é o implacável relógio da vida que trará.

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