DIVERTIDO É GANHAR – 26/12/2009

“Se a Mercedes decidir voltar à F1, eles têm direito ao meu contrato. Vou dirigir para eles.” Essa frase me foi dita por Michael Schumacher no fim de setembro de 1991, quando o entrevistei pela primeira vez. Na época, eu trabalhava para a Folha de S. Paulo. Era a véspera de seu quarto GP, em Barcelona. Terminou em sexto. Nos dois anteriores, no Estoril e em Monza, também pontuou, pela Benetton.

Não era segredo para ninguém que a Mercedes tinha comprado sua vaga para a estreia na Bélgica, pela Jordan, e depois no time de Flavio Briatore – que não pensou duas vezes para despachar Roberto Moreno, embolsar algum e, de quebra, ter em um de seus carros coloridos um rapaz bem promissor.

Em 1994, finalmente, a Mercedes voltou à F-1, em parceria com a Sauber – com quem já trabalhava no Mundial de Marcas. No ano seguinte, os alemães assinaram com a McLaren. Foi quando tentaram Schumacher pela primeira vez, seriamente (depois voltaram à carga duas vezes, como revelou Norbert Haug, sem sucesso).

Mas, àquela altura, Michael já era campeão do mundo. Uma estrela. Que, logo depois, seria contratado a peso de ouro pela Ferrari. O sonho prateado estava adiado, sem data para ser realizado. A Mercedes estava apenas começando. Schumacher tinha outros planos: tornar-se um mito ao volante dos carros vermelhos. Cada um seguiu seu caminho. Com Mika Hakkinen, a McLaren e a Mercedes conquistaram o que queriam. Hamilton já estava no forno, quase pronto. Michael fazia parte de outra turma, dos italianos.
E virou mito. Depois de quatro anos camelando, ganhou a primeira taça em 2000 e repetiu o feito nas quatro temporadas seguintes. Bateu todos os recordes possíveis: vitórias, pontos, pódios, poles, vitórias na mesma temporada, dizimou a concorrência. Dava até pena dos outros pilotos.

Dezoito anos depois daquela entrevista despretensiosa no paddock do circuito catalão, a profecia se confirmou. “Vou dirigir para eles”, foi o que disse em 1991. Vai mesmo.

Juro que quando essa história apareceu na mídia, em novembro, eu duvidei. Muito pelo que me disse Felipe Massa, num programa da ESPN Brasil, sobre o teste que Schumacher fez na Ferrari para substituí-lo, em agosto. A experiência o deixou muito preocupado com as dores no pescoço e a perda de visão nas ondulações de Mugello a bordo de um carro de 2007. Para Felipe, amigão de Schumacher, ele não iria voltar mais.

Só que a Mercedes, pelo jeito, nunca desistiu dele. E a hora chegou, em circunstâncias que Michael não poderia recusar: uma equipe própria, sob a batuta do velho amigo e parceiro Ross Brawn, o carro campeão do mundo, tudo isso aliado a uma vontade danada de correr.

Schumacher disse terça-feira que vai defender os títulos da ex-Brawn e que quer “se divertir”. E vai, claro. Porque volta sem nenhuma pressão, por amor ao ofício, e nada do que acontecer vai apagar o que já conquistou. Mas que ninguém espere apenas um velhinho aposentado brincando de carrinho. O conceito de diversão varia de pessoa para pessoa. No caso do alemão, “se divertir” é ganhar.

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