VELHINHO TRAQUINAS – 20/03/2009

Não sei se é lenda, mas “se non è vero, è ben trovato”. Foi um colega sueco que me contou. Um dia, de férias, Bernie Ecclestone se encontrou por acaso com alguns jornalistas europeus da velha guarda em Havana, entre eles esse meu amigo. Em meio a charutos e mojitos, Bernie, que é um brincalhão, sugeriu que todos eles enviassem despachos aos seus jornais informando que tinham-no encontrado na capital cubana, e que isso só podia significar uma coisa: ele estava negociando com Fidel Castro a realização de um GP em Cuba.

ram tempos em que brincadeiras como essa não eram punidas com demissão, não havia internet, o fluxo de informações era mais lento e, digamos, descompromissado. E, afinal de contas, que mal havia em anunciar um GP em Cuba? Depois todos desmentiriam e no próximo encontro, num paddock qualquer, ou numa mesa de restaurante regada a bom vinho, os envolvidos dariam boas gargalhadas, e a vida seguiria incólume, como sempre seguiu.

Bernie é um velhinho traquinas, e essa é a única explicação possível para tudo que aconteceu nesta semana na F-1. A FIA, terça-feira, anunciou uma mudança radical no seu regulamento esportivo, determinando que a partir de agora o campeão mundial passaria a ser o piloto que vencesse mais corridas, não aquele que fizesse mais pontos.

Foi uma gritaria geral e ontem as equipes, reunidas em sua associação, avisaram que a decisão era ilegal, e que iriam às últimas consequências para revertê-la. Imediatamente a FIA divulgou comunicado dizendo que só tinha mudado as regras por sugestão do “detentor dos direitos comerciais” da F-1, Bernie Ecclestone, que segundo a entidade teria conversado com os times e obtido deles o apoio para adoção da nova fórmula. E que se as equipes quisessem a volta do sistema de pontos usado desde sempre, tudo bem: adia-se a decisão para 2010 e tudo continua como está.

Bernie nunca recebeu das equipes o apoio para sua ideia de dar o título ao maior vencedor de GPs, uma variável da “fórmula olímpica” que passou a defender no final do ano passado — de dar medalhas aos três primeiros colocados em cada corrida. Ou está completamente gagá, algo que não é muito provável, ou mentiu deslavadamente ao Conselho Mundial da FIA, fazendo uma brincadeira com todo mundo, com a conivência do velho amigo Max Mosley.

Foi o bastante para a F-1 ganhar as manchetes de jornais e TVs, como naquela distante presepada sobre um GP em Cuba, e colocá-la em evidência na mídia a poucos dias da abertura do Mundial — como se a categoria precisasse disso. Bernie, quem o conhece sabe, é do tipo que acredita piamente que podem falar mal quanto quiserem de seu campeonato, desde que falem bastante. Conseguiu, mais uma vez.

Já não é o caso nem de discutir os efeitos da mudança natimorta, que à luz de qualquer análise esportiva bem fundamentada se mostrava uma sandice sem tamanho, capaz de mexer na essência da competição e de produzir aberrações como um campeão com 20 ou 30 pontos a menos que o vice. Caiu, caiu, esquece-se o assunto. É o caso, agora, de refletir sobre o que fazer no ano que vem. As próprias equipes haviam sugerido mudar o sistema de pontuação para valorizar a vitória. Os três primeiros, que hoje recebem 10, 8 e 6 pontos, passariam a somar 12, 9 e 7, distanciando-se dos demais que marcam até a oitava colocação. É uma proposta razoável.

Há quem imagine que por trás de todas as idas e vindas desta semana pode existir alguma disputa de poder, uma queda de braço entre a dupla FIA/Bernie e as equipes, ou ainda que o pano de fundo possam ser as questões comerciais que opõem os times aos dirigentes do esporte.

Não sei, não. Está me parecendo, mesmo, mais uma travessura do baixinho mais esperto do planeta.

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