OPERÁRIO PADRÃO – 03/12/2010

A notícia provavelmente não será dada em manchete. No máximo, uma notinha de rodapé. O contrato de Luca Badoer com a Ferrari terminou e não será renovado.

É o fim da carreira do piloto que, talvez, tenha passado mais tempo na vida dentro de um carro de Fórmula 1 do que qualquer outro. Por 12 anos, Badoer foi piloto de testes da Ferrari. Só na pista de Fiorano, vizinha da fábrica de Maranello, ele percorreu 130 mil km dentro de um cockpit vermelho. Para se ter uma ideia de quanto é isso, Rubens Barrichello, o piloto que mais disputou GPs em todos os tempos, soma 75.334 km rodados em suas mais de 300 corridas.

Luca era uma promessa do automobilismo italiano. Campeão da F-3000 em 1992 aos 21 anos, estreou na F-1 no ano seguinte pela Scuderia Italia, que usava motores Ferrari. Mas aí sua carreira assumiu ares erráticos. Não correu em 1994 e voltou em 1995, na pequena Minardi. Aí passou pela ainda menor Forti Corse (1996), parou de novo e foi aparecer em 1999 de novo na Minardi.

E foi nesse ano que protagonizou uma das imagens mais tocantes da F-1 moderna, no GP da Europa em Nürburgring, uma prova surpreendente que teve vitória de Johnny Herbert, da Stewart (equipe que, anos depois, acabaria dando origem à Red Bull). Faltavam apenas 13 voltas para o final, e Luca, que tinha largado em 19º, ocupava a quarta posição. Aí seu carro quebrou.

As câmeras mostraram o rapaz de capacete branco e amarelo saindo do carro lentamente, ajoelhando-se ao seu lado, deitando a cabeça na borda do cockpit e desabando num choro inesperado. Chegar em quarto com uma Minardi, em qualquer corrida, seria algo próximo de um milagre. O milagre não aconteceu.
Talvez tenha sido ali que Badoer tenha decidido não correr mais. Já contratado para ajudar a Ferrari em testes privados, que aconteciam às pencas naqueles tempos, resolveu que faria isso pelo resto da vida. Nada mais de decepções ou tristezas. Ou de esperanças. Nada mais de dar murro em ponta de faca.
A partir dali, seriam ele e o carro. Um carro, apenas. Ninguém mais.

E assim foi. De 14 de janeiro de 1999, quando sentou numa vermelhinha pela primeira vez, em Barcelona, a 17 de dezembro de 2008, no Algarve, foram nada menos do que 475 dias de testes pelo time italiano. Na maioria das vezes, solitário nos circuitos da vida. Ele, o carro, a pista. Andando em círculos, correndo contra ninguém. Testando, experimentando, informando. Um operário, de trabalho repetitivo e anônimo.

Em 2009 a FIA proibiu os testes. Luca ficou meio sem função. Dirigia carros vermelhos em exibições pelo mundo afora e ia aos GPs na condição de piloto reserva. Aí houve o acidente de Massa na Hungria, e ele assumiu o volante. Era a escolha mais natural. Foram duas provas. Não vale nem a pena lembrar os resultados. Parecia uma chicane ambulante.

Badoer se vai da F-1 sem glórias ou troféus. Largou em 50 GPs e nunca marcou um ponto sequer. É o piloto que mais correu sem pontuar na história da categoria. Em corridas, foram meros 11.253 km. A melhor posição, um sétimo lugar em Imola, 1993. Naquela época, sétimo não pontuava. Não é nada, perto do que rodou, rodou e rodou para ajudar a Ferrari a ser o que é. Sim, porque quando alguém pergunta a Michael Schumacher quem foi o cara mais importante em suas conquistas intermináveis nos anos 2000, Badoer estará na pole.

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