RIO – 26/11/2010

Eu tinha medo de ser raptado que nem o Carlinhos e da porta pantográfica do elevador. Tinha medo dos maconheiros na escadaria do cine Ricamar que vendiam tóxicos. E tinha medo, logo no começo, que minha mãe esquecesse de me buscar na escola nova, e um dia ela quase esqueceu mesmo, e eu fiquei na porta da escola esperando a Belina verde segurando o choro de mão dada com meu irmão mais velho, e demorou pacas.

E tinha medo de me perder do meu pai no Maracanã porque estava sempre cheio.

Mas não tinha medo da praia, do mate, do limão, dos biscoitos Globo, de jogar bola na rua, da salsicha esbranquiçada dos carrinhos da Geneal, de andar no bondinho, de subir ao Cristo, do trem-fantasma do Tívoli Park, nem de escorregar no tobogã, até o dia que meu pai disse que tinham jogado uma gilete no tobogã que tinha cortado não sei quantas mil crianças, e aí passei a morrer de medo do tobogã.
E não tinha medo tampouco da Cruzada São Sebastião atrás do clube onde lutava judô, afinal era faixa amarela, nada poderia meter medo num faixa amarela, e não tive medo nenhum dos zagueiros grandões na peneira no Flamengo, fiz até um gol, de carrinho.

Aí fomos embora para morar em outros lugares, e voltei anos depois para ver corridas em Jacarepaguá e shows de rock na Barra, e não tinha medo de nada, afinal tinha crescido ali, andava de carro para cima e para baixo como se nunca tivesse saído um dia, conhecia todos os caminhos e as mãos das ruas, e então as corridas viraram profissão, o que achei ótimo, porque fazia o que queria e ainda me pagavam para aquilo, ficávamos em pequenos apartamentos alugados de enormes condomínios perto da pista, eu pegava as lentes dos fotógrafos do jornal para espiar as garotas se trocando nos prédios vizinhos, era tudo muito divertido, festivo, alegre.

Hoje vejo tanques na rua e meu vizinho do andar debaixo em Copacabana, com quem jogava bola e trocava maços de cigarro repetidos, a gente colecionava essas coisas, eu morava no 201 e ele no 101, meu vizinho aparece na TV abatido, arrasado, acuado, hoje é o governador do Estado, já me peguei tentando imaginar se um dia a gente poderia se encontrar para falar dos botões de galalite que comprávamos na lojinha da praça Cardeal Arcoverde, mas creio que seria meio despropositado conversar sobre botões de galalite ou coleção de maços de cigarro nos dias que correm, o assunto é outro, blindados, fuzis, metralhadoras, cerco, balas perdidas.

As pessoas estão com medo, mas tenho certeza que quando voltar lá os meus medos serão os mesmos, dos sequestradores do Carlinhos, das portas pantográficas, da gilete no tobogã. Não há mais maconheiros na escadaria do Ricamar, e por isso também não terei medo deles.

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