A LONGA JORNADA DE VOLTA – 11/11/2011

Nos anos 70, a Williams era apenas mais uma equipe inglesa de garagem. Estava longe de ser uma das grandes, até Frank Williams descobrir o que a gente chama no futebol, meio brincando, meio sério, de “mundo árabe”. A gente chama assim porque nunca sabe direito em qual time de qual país estão os jogadores e técnicos brasileiros. Na dúvida, “mundo árabe”.

Pois Frank descobriu as arábias, caiu nas graças de algum sheik (ou xeque, já que o termo foi aportuguesado como staff, que virou estafe, ou stand, que virou estande), arrumou uma grana generosa, começou a ganhar corridas e campeonatos, tinha patrocínio até das empresas Bin Laden — essa mesmo, embora não se tenha notícia da presença do então jovem Osama em corrida nenhuma.

Era uma excentricidade para os olhos ocidentais, os pilotos da Williams não podiam beber champanhe no pódio porque pegava mal com Maomé, mas era dinheiro, e dinheiro pode ser excêntrico, que se dane, desde que pague as contas. E assim, graças ao Islã, a Williams virou grande.

Essa grandeza atravessou as duas décadas seguintes, os petrodólares do mundo árabe ficaram para trás, vieram os felizes e mui bem-sucedidos anos de casamento com a Renault, depois a promissora parceria com a BMW, até os bávaros se mandarem e Frank se encontrar no mato sem cachorro.

Faz tempo que está assim, até ser obrigado a recorrer a um piloto pagante de verdade, o simpático Maldonado, que traz petrodólares, também, mas estes direto da América do Sul, da Venezuela, e com ele a Williams vai por mais quatro anos, só que não é o bastante.

Por isso, os olhos se voltaram novamente para o mundo árabe, o Qatar, para ser preciso e dar endereço, quem sabe outro xeque com um bom cheque (muito bom, esse trocadilho) para pagar a Renault de novo e, sobretudo, para tirar do ostracismo o calado e talentosíssimo Kimi Raikkonen, campeão mundial de 2007 que se aventurou na lama e no pó nos últimos dois anos, perdeu o pai, perdeu dinheiro, e está precisando recuperar a autoestima.

Kimi visitou a fábrica mais de uma vez, trocou algumas palavras com os executivos da equipe, recebeu apoios públicos de gente como Michael Schumacher e Martin Whitmarsh (este, seu ex-chefe na McLaren; Michael, com quem duelou pelo título mundial de 2003, vencido pelo alemão por dois míseros pontinhos), parece que está a fim. Ninguém vai vê-lo saltitante, não faz seu tipo, mas está a fim.

A Williams não voltará a ser grande porque terá dinheiro árabe, motor Renault e Raikkonen ao volante. O caminho de volta ao grupo da frente é longo e, em geral, leva tempo. Uma jornada árdua e penosa, ainda mais quando se trata de uma organização conservadora e cautelosa como a Williams.

Mas muda de patamar, sem dúvida. E é preciso dar o primeiro passo.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s