ATÉ TU, ALEMANHA? – 20/07/2012

E aí que Nürburgring pediu falência. Como pode? Qual terá sido a grande cagada que fizeram em Nürburgring, para que um circuito inaugurado na década de 20 do século passado tenha de pedir falência?

Eu digo. Foi querer transformar Nürburgring num Playcenter perdido no meio do nada. Foi negar a Nürburgring sua natureza: o de ser uma pista de corridas, só isso. Quando muito, palco de um monumental festival de rock. E bastava. Bastava isso, a pista de corrida, o hotel de quartos com vista para os boxes, o espaço para o festival de rock e Nordschleife, o monumento à velocidade enfiado na floresta, só utilizado em algumas ocasiões especiais, na maior parte do tempo apenas ali, para ser contemplado.

E disponível para alguns manezinhos com seus carros de rua darem uma volta de vez em quando para se estabacarem em suas centenas de curvas traiçoeiras e repletas de história e respeito.

Era o cenário ideal, uma cápsula do tempo, quase. Porque Nürburgring fica na beira da estrada, e como não tem muita coisa em volta, os pilotos ficavam todos no mesmo hotel, esse com vista para a pista. E como as cidades das redondezas são pequeninas, o povo se ajeitava nos campings, com barracas e trailers, ou em casas de família. E como alemão é festeiro, a estrada e a pequena vicinal L93 que sai da 258, a Hauptstrasse, virava quase uma quermesse com barracas de salsichas, cerveja, pretzel, miniaturas, bandeiras, camisetas, bonés e o diabo a quatro.

E as noites eram barulhentas e divertidas, tinha um ônibus que circulava por ali levando a turma para umas baladas meio toscas, montadas sob tendas, e o ônibus tinha umas meninas meio feiosas de biquíni fazendo pole dance, cantoria o tempo todo, copos espalhados pelo chão, sujeira, alegria, vida.

Aí algum cretino qualquer achou que ali tinha… potencial. E começaram a construir um… complexo. Um complexo de diversão, lazer e gastança.

Sifu.

Da primeira vez que fui a Nürburgring, em 1995, à última, já não lembro quando, uns dois ou três anos atrás, aquilo se transformou tristemente. Irreconhecível. Uma monstruosa estrutura metálica na entrada, ao largo da 258, passou a anunciar o que havia ali dentro. Não era mais um autódromo. Era um complexo. Um parque. Cassino. Restaurantes. Business. Kart. Simuladores. Escritórios. Eventos. Lanchonetes. “Experiências”. Coisas demais. Alma de menos.

A região não tem gente suficiente para ocupar o complexo o ano inteiro. Para os 365 dias de adrenalina, como sonhavam os idealizadores, que pegaram dinheiro emprestado num banco estatal, não conseguiram pagar, e a composição societária tem governo no meio, e tudo pode ir para o vinagre.

Tivesse Nürburgring se mantido como sempre se manteve durante 70 anos, pista, rock, corridas, talvez a desgraça não acontecesse. Aquilo enchia de gente, movimentava a economia da região em cinco, seis, dez, quinze eventos por ano, com F-1, DTM, 24 Horas, Rock am Ring, caminhões, estava bom, tudo funcionava. A lojinha de miniaturas no posto de gasolina era uma das melhores do mundo, existirá ainda? E a pensão onde eu ficava, como se chamava a Frau? Está lá. Vi naquele treco do Google que fotografa tudo do alto.

Está lá a casa, o lugar onde eu parava o carro quando chegava do jantar no La Lanterna do Maurizio & i suoi fratelli, comida excelente, vinho às jarras, tiramisù, café, recibos em branco, está lá o pequeno pátio que leva à porta de entrada, o filho da Frau nos dava uma senha para abrir a porta, chegávamos tarde, barulhentos, mas no dia seguinte, às 7h, lá estava posta a mesa do café, sempre igual, o ovo cozido, os frios, o leite, as frutas e as geleias. Acho que a Frau ainda está viva, ela nunca teve jeito de ser das pessoas que morrem, posso voltar lá daqui a 50 anos e lá estará a Frau, seu filho e seus ovos cozidos.

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