HISTÓRIAS DE PIQUET – 17/08/2012

Piquet pode não ter sido o melhor, nem o mais importante piloto brasileiro. Mas foi, certamente, o mais interessante. E na minha escala de valores, muito particular, interessante vem na frente de importante e de melhor. E nessa mesma escala de valores, bastante particular, Emerson foi o mais importante e Senna, o melhor.

Isso posto, porque é óbvio que quando se fala de Piquet em tom laudatório a malta de sennistas se ouriça, assim como se ouriça a súcia piquetista quando o tom laudatório é dirigido a Senna, falemos um pouco de Nelson Piquet.

(Mas antes vale um parêntese para os mais jovens, que talvez não compreendam bem essa história de sennistas e piquetistas. Isso existia — ainda existe, mas existia em manifestações, digamos, mais agudas nos anos 80 e 90 do século passado. Hoje essa briga se dá em fóruns, blogs, redes sociais. Uma coisa meio estúpida. Piquet e Senna eram os esportistas brasileiros mais bem-sucedidos de um tempo em que o futebol, carro-chefe esportivo do país desde que o dia em que o primeiro tupinambá deu um bico num coco numa praia de Trancoso, estava em baixa. A seleção havia conquistado o tri em 1970 e a decepção de 1982 fez com que outros ídolos ganhassem algum espaço na mídia e no coração amanteigado de nossa gente cordial. Assim, dois caras que ganhavam corridas e títulos numa modalidade de ponta, como a Fórmula 1, conquistaram uma notoriedade ímpar. Era vinhetinha pra lá, Tema da Vitória pra cá, bandeira no pódio e Hino Nacional o tempo todo. Na falta de outra coisa, servia bem ao propósito de manter a autoestima das pessoas em níveis aceitáveis — aquela babaquice de sempre, de misturar esporte e patriotismo. Isso não vem ao caso, porém. Com dois caras para torcer, era natural que a escumalha se alinhasse a um ou a outro. Senna era a encarnação do Bem. Piquet, a do Mal. Claro que estou simplificando as coisas. Mas era mais ou menos assim.)

Piquet e Senna foram igualmente competitivos por pouco tempo: de 1985, quando Ayrton foi para a Lotus, até o fim de 1987, quando Nelson deixou a Williams. Antes e depois, foram apenas contemporâneos, mas não duelistas. Os últimos quatro anos de Piquet na F-1 foram totalmente ofuscados pelo sucesso estrondoso de Senna. E isso contribuiu para acirrar a rivalidade, que ocorria “a nível de” paddock, imprensa e papos de botequim. Era bem divertido.

Nelson completou 60 anos hoje. Sua trajetória é das mais ricas, construída a partir de uma oficina em Brasília, passando por viagens de Kombi, por motores “emprestados” dos clientes, por categorias de base como a Super Vê (que era belíssima), por muita mão na graxa, muita inteligência, esperteza, capacidade de observação, aprendizado constante, F-Ford na Inglaterra, F-3, títulos, vitórias, dedicação, esforço, empenho, entrega, comprometimento, confiança no taco e tudo mais que compõe a figura completa de um grande piloto.

Na F-1, conviveu com gênios de todos os tipos e áreas, como Ecclestone, Murray, Head, Williams, o pessoal da BMW (Piquet fala “bê-eme-vê”, como se deve), da Honda, das fábricas de pneus, mecânicos, engenheiros, projetistas, e sempre foi um deles, um igual, um gênio para um monte de coisa. Correu, ganhou, bateu, foi para a Indy para correr as 500 Milhas, bateu de novo, quase morreu, parou, casou um monte de vezes, encheu o mundo de descendentes, tornou-se empresário e colocou um filho na F-1.
Nessa vida louca toda, Piquet sempre manteve o ar moleque e os olhos rápidos e faiscantes, parecia não envelhecer nunca, até 2008, quando Nelsinho fez a cagada do século em Cingapura e ele, o pai, se envolveu até a última célula. Aí, envelheceu. Acho que nada na vida incomodou Nelson, nada foi capaz de derrubá-lo, de deixá-lo magoado ou triste por mais de cinco minutos. Mas o filho bater o carro de propósito, a mando de um crápula como Briatore, acabou com ele.

Convivi bastante com Piquet, de 1988, quando comecei a cobrir F-1, até 1993, quando fez sua última corrida importante, em Indianápolis. Guardo poucas histórias, como a do boné que me deu no grid das 500 (e pode ser lida aqui: http://flaviogomes.warmup.com.br/2012/05/piquet-20/), das brincadeiras de pivete, como pegar meu gravador e jogar longe, para vê-lo se espatifar no chão e cair da cadeira de tanto rir, das boas entrevistas e de um ou outro encontro fora das pistas. Num deles, em Cumbica, o vi desembarcar com duas rodas enormes nas mãos e perguntei por que não tinha despachado aquilo, para ouvir dele que tinha medo que o despacho se extraviasse, eram para alguém que precisava dar um upgrade na sua cadeira de rodas, e aquilo era importante demais para se perder numa esteira de aeroporto.

Em 1989, em Monza, Senna brilhava na McLaren e Piquet se afundava numa Lotus medíocre, quando cruzei com ele no paddock e o chamei timidamente. Ele virou-se e disse que não queria falar com ninguém, estava puto dentro do macacão e sem saco para nada, soltou um palavrão e seguiu em frente. Tomei coragem e gritei: não quero falar com você, é que tenho um recado do Crispim! Nelson estancou na hora, voltou-se para mim e perguntou: você conhece o negão? E eu contei que sim, que conhecia o negão, ele mexe nos meus DKWs, tirei um pedacinho de papel do bolso com um número de telefone e dei a ele. Puta que pariu, o Crispim, quanto tempo que eu não vejo esse negão filho da puta, me dá esse telefone aqui, e abriu um sorriso enorme, esqueceu a Lotus, a desgraça do carro, o sucesso do rival, as pentelhações da ex-mulher. Miguel Crispim Ladeira, mecânico-chefe da equipe Vemag nos anos 60, era quem lhe emprestava um quarto para dormir em São Paulo quando Piquet despencava de Kombi de Brasília trazendo suas peças e ferramentas para correr de Super Vê, era quem lhe dava uma mão em Interlagos, era um irmão e um amigo. Dei o pedacinho de papel para ele, que me abraçou e disse puta que pariu, vou ligar pra ele já.

E consta que ligou, mesmo.

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