ROMEU-E-JULIETA – 13/07/2012

Uma ou duas vezes por ano sou convidado para almoçar com um amigo importante do mundo do automobilismo. Ele e sua tchurma, por assim dizer, e não vem ao caso dizer quem é, porque nossos almoços são privados e já ando meio de saco cheio dessa história de que tudo se sabe, tudo se grava, tudo se compartilha. Ainda vou dar um pé no mundo digital e não vai demorar. Preciso só ganhar na loteria, deixar o dinheiro rendendo, largar os negócios com a minha tchurma, comprar uma Kombi Safari e dar a volta ao mundo.

Depois escrevo um livro.

Enquanto não ganho na loteria e não compro a Kombi Safari para dar a volta ao mundo e escrever um livro, porém, vamos tocando o barco. E antes de falar sobre o tema do almoço que, de certa forma, angustia nosotros que de carros e corridas gostamos e, de certa forma, vivemos, abro um parêntese para pedir desculpas aos meus eventuais leitores semanais.

Esqueci de escrever minha coluna nas últimas semanas. Isso mesmo, esqueci. E ninguém sentiu muita falta. Penitencio-me, e explico. Deixei de fazer colunas para jornais impressos neste ano. A tarefa de escrever um texto por semana, sempre às sextas, para publicação no sábado, foi uma de minhas inúmeras missões por anos a fio. Sendo preciso, desde 1993, quando estreei a coluna “Warm Up” na “Folha de S.Paulo”.

Mas as coisas mudam, não? Desde então, a última década do século passado, surgiu esta bagaça chamada internet. E, mais recentemente, outra bagaça chamada blog. Tenho o meu, desde o final de 2005. Chegou a 15 mil posts outro dia. “Posts”. Eu chamava isso, antes, de “textos”. Mas posts num blog nem sempre são textos, embora todos os textos num blog sejam considerados posts. E o resultado é que meus posts sobre corridas, treinos e outros assuntos ligados à F-1 acabaram, nos últimos anos, virando textos que bem poderiam ser minhas colunas semanais. Só que a velocidade da internet, eu diria, não permite que, no caso de um cabra como eu que tem um blog, se espere uma semana por uma coluna, um texto cheio das minhas bobagens de sempre. Daí que a coluna que escreveria na sexta, escrevo no domingo, depois da corrida. Assim como escrevi outra no sábado, depois do treino. E outra na sexta anterior. E outra na segunda. Quem aguenta tanto texto?

Nos primórdios da internet, lá por 1999, 2000, quando a coisa começou a pegar no breu, o Matinas Suzuki Jr., com quem trabalhei na “Folha” por anos e depois no iG por outros anos, inaugurou uma coluna que eu achava sensacional, o futuro do jornalismo. Era escrita em forma de cartas para um destinatário imaginário, com um tratamento gráfico belíssimo para a época: com links, referências e elementos gráficos que exploravam todos os recursos que, imaginava-se, a internet poderia oferecer.
Matinas parou com a coluna, nem sei se é possível encontrar vestígios dela num desses sites de arqueologia internética. Pena. Se alguém achar, avise. Avise lá pelo blog. Por que parou, não sei. Mas sei que esses recursos se multiplicaram, hoje é raro escrever um texto sem um vídeo acoplado, ou uma animação, ou sei lá o quê mais. Vai ver o Matinas se cansou. Foi cuidar de seus cachorros na chácara, no que fez muito bem.

Saudades de quando se escrevia apenas um texto, e era o bastante. Hoje, nada é o bastante.

Digo tudo isso para prometer aos meus eventuais leitores que vou tentar me disciplinar para ter o que escrever todas as sextas que já não tenha escrito antes. Um texto que não é mais feito para ser lido num jornal de papel tem de ser diferente, suponho. Vou atrás de alguma fórmula mágica, senão vai ser difícil batucar uma vez por semana algo que tenha alguma relevância.

E dito isso, volto ao almoço. Gozado que estou de saco cheio desse negócio de compartilhar, mas no fim é o que farei: compartilhar um dos temas do almoço. Ao menos não preciso compartilhar a comida. Nem a sobremesa, espetacular. Um romeu-e-julieta que nunca tinha experimentado antes. Negócio de louco. Mas não tirei foto com meu iPhone, nem coloquei no Instagram. Preferi comer, mesmo.

Estou me desviando do assunto. O tema do almoço. Um dos, diga-se, porque falamos outras besteiras, também. E foi a crise do automobilismo, o tema. Crise de tudo, mundial. Audiências de TV despencando, custos subindo, desinteresse dos jovens, vilania dos automóveis, futuro da F-1, futuro das equipes, das corridas, dos pilotos, o diabo a quatro.

A certa altura o amigo que pagou a conta se voltou para mim e, depois de várias digressões sobre a tal crise, disparou a pergunta: o que você acha que deve ser feito?

Quatro pares de olhos se voltaram para mim, como se um oráculo fosse este pobre comedor de romeu-e-julieta, capaz de dar o diagnóstico definitivo e elaborar a solução viável que resolveria todos os problemas e todas as crises, e assim todos poderíamos voltar para nossos afazeres mais tranquilos.

Não tenho a menor ideia, respondi, porque em geral não tenho mesmo a menor ideia sobre nada, nem diagnósticos, nem soluções, e nisso ao menos fui sincero. Àquela altura, eu só tinha uma solução possível para o romeu-e-julieta, nada mais.

E do almoço, além da companhia agradável, de muitas risadas, de muito papo-furado, de falar mal de uns e de outros, acabou não saindo solução nenhuma para nada. Restou a conclusão de que o automobilismo está num beco sem saída, a conta não fecha mais, uma hora essa coisa toda, a F-1 em particular, vai pelos ares, e o último que apague a luz.

Mas sobrou também a convicção, e essa é pessoal e intransferível, de que romeu-e-julieta nem sempre é só goiabada Cascão e queijo Minas, variações sobre o tema são sempre bem-vindas, é preciso reinventar sempre — tentarei fazer isso com a coluna semanal, prometo. Já achei a receita e vou fazer igual na semana que vem. O romeu-e-julieta, digo. Não tenho ainda receita para a coluna.

E digo também que a torta de maçã com sorvete estava igualmente com uma cara ótima, mas essa não experimentei. Quanto ao automobilismo, a gente fala sobre isso no próximo almoço, se sobrevivermos até lá.

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