Naka-san – 12/07/2013

Como vão as coisas aí do outro lado do mundo? Rapaz, tirei férias de algumas semanas e já na primeira carta-coluna da semana o que não falta é assunto.

Esta semana foi agitada. Caíram na rede, graças a um jornalista narigudo aqui do Brasil, uns contratos dos tempos em que você corria. Daquela época em que marcas de cigarro patrocinavam várias equipes e despejavam caminhões de dinheiro na F-1, lembra?

Um deles é o do Piquet na Lotus, de 1988. Quer dizer então que por contrato você não podia passar o cara? Que moral, hein?

Estou chamando essa saraivada de documentos, que pertencem a uma biblioteca na Califórnia que arquiva documentos da indústria do tabaco, de “F-1 Leaks”. Pode parecer um exagero, porque na prática não há, até agora, nada que possa levar a uma denúncia que vá abalar as estruturas terrestres.

(OK, de péssimo gosto falar de abalar as estruturas terrestres. Vocês não esqueceram, nem podem, o
último grande terremoto. Desculpe.)

Mas eu dizia que não é propriamente algo que vá derrubar governos, ou levar alguém para a cadeia, ou desconstruir reputações. São curiosos e interessantes, porém. Trazem detalhes que a gente não conhecia a fundo.

Muita gente anda indignada com a grana que vocês, pilotos, recebiam em paraísos fiscais, mas estou tentando explicar que isso não é exatamente ilegal. Depende de quem paga e de quem recebe, de onde se tem domicílio, de onde se paga imposto, da origem do dinheiro. No mundo do esporte, do show-business e sei mais lá em qual outro mundo (tem o do tráfico de armas e drogas, da corrupção, de todo o lixo humano que o planeta produz, mas essa é outra história), é comum montar uma empresa que movimente grandes somas em países cujos regimes tributários são mais leves. As empresas montadas nesses países operam com dinheiro que tem origem, contabilizado em algum lugar, em algum momento. Quem usufrui dessas quantias tem bons advogados tributaristas e sabe fazer as coisas dentro da lei. São apenas espertezas.

Sim, é claro que eu sei que na F-1 tem uma pá de contratos registrados através de empresas instaladas nesses paraísos fiscais. Faz parte do capitalismo, ninguém gosta de pagar muitos impostos, as pessoas se viram como podem, e se o mundo das finanças oferece essas possibilidades de pagar menos, os caras pagam menos. E se acertam com as autoridades de seus próprios países. Aliás, nem sei por que estou falando disso com você. Não reparei se nesses contratos tem alguma coisa com seu nome sobre pagamentos em paraísos fiscais. Vai ver, você recebia em ienes numa agência bancária de Suzuka, pagando tudo que o leão japonês exige. É problema seu, não tenho nada com isso.

Estou escrevendo mesmo por causa da tal cláusula de conduta. Não poder chegar na frente do companheiro de equipe é osso, hein? Mas é gozado. Imagino que você não tenha se preocupado muito com isso. Não vou levantar os números, nem rever todas as corridas daquele ano, mas acho que você não deve ter chegado na frente do Piquet em nenhum GP “em condições normais”. Engraçado, mesmo, é um cara como o Piquet, tricampeão do mundo, querer isso no contrato. Assim como o Senna.

Imagino que era, e deve ser ainda em algumas equipes, algo tão comum quanto receber salário em paraíso fiscal. O que explica aquilo que aconteceu na Áustria com Barrichello, lembra? Pois é. Devia estar em contrato, como todos imaginávamos. Mas não precisava, né? E o Rubens cumpriu o que estava escrito, isso não se pode negar. Se bem que não precisava ser daquele jeito. Era só deixar passar no meio da corrida e ninguém mais iria falar nisso. Mas foi deixar para a última curva, e depois fez biquinho, polêmica desnecessária. Era só dizer: “gente, tenho um contrato, cumpri, as coisas são assim, está tudo bem”.

O que o ‘F-1 Leaks’ mostra com esses contratos é que os pilotos morrem de medo de seus companheiros de equipe, isso sim. Uma bobagem sem tamanho. Acho. Vai ver vocês têm seus motivos. Precisa mesmo se resguardar por escrito da possibilidade de o outro ser mais rápido? Acho muita pobreza de espírito. E falta de confiança no taco. Ou falta de confiança nas pessoas com quem trabalha, vai saber…
Piquet, com todo respeito a você, meu caro nipônico, não tinha necessidade disso. Mas talvez ele tenha carregado algum trauma da Williams, dos tempos em que dividia a equipe com o Mansell. É uma tese… Ou, então, esses contratos são meio padronizados, toda equipe tem piloto número 1 e piloto número 2, e pronto.

Só sei que, a partir desses documentos, vou pensar duas vezes antes de afirmar, como muitas vezes afirmei, que não tem isso de primeiro e segundo piloto por escrito, que o que determina quem é o primeiro é o desempenho na pista. Sempre achei que essas coisas eram implícitas, combinadas no fio do bigode, dependiam de circunstâncias. Não mais. Passarei a desconfiar de todos. Pelo jeito, está tudo preto no branco, mesmo. De papel passado, autenticado e com firma reconhecida.

Piquet está sendo malhado por muita gente nos comentários dos blogs. Senna, idem. Um exagero, também. Estavam jogando o jogo, creio. Atualmente, os brasileiros não estão com essa bola toda, não. É bem provável que o contrato do Massa com a Ferrari tenha cláusula de conduta, assim como o de Barrichello, quando ele corria com o Schumacher. E o do Grosjean. E o de todos. Da mesma maneira, jogam o jogo.

Na verdade, mesmo, achar que essas coisas não constavam dos contratos era um pouco de ingenuidade de minha parte. Eu mais queria achar que não estavam, do que tinha convicção de que não estivessem. Preferia acreditar que esporte é disputa, competição, e que vença o melhor. No fim das contas, o melhor acaba vencendo, sim. Mas a turma não quer que nada de errado aconteça, e mete no papel, por via das dúvidas. Dá um jeito de se resguardar, de garantir que seus roteirinhos sejam cumpridos, que sejam à prova do imponderável.

As pessoas não gostam muito do imponderável.

Um abraço, Naka-san. Você foi um bom piloto, apesar de tudo. Até o Piquet tinha medo.

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