Regi – 01/11/2013

Um leitor aí me mandou um vídeo de 1991. Esse negócio de internet é bacana. Tem coisas que a gente já esqueceu, porque a gente esquece mesmo, e que nunca lembraria de procurar para rever. Tipo uma fita de vídeo de 1991. Acho que você pedia para a Carmen Silvia gravar as corridas, não? É possível. Em 1991, videocassete não era lá nenhuma novidade, mas era o que tínhamos. As pessoas gravavam filmes em vídeo. Casamentos, batizados. Corridas. Tem gente que gravou todas as corridas desde sempre.

Mas te conheço, você é bem desorganizado e se essa corrida de 1991 está gravada, tenho certeza que você não faz a menor ideia de onde se encontra. Aqui em São Paulo? Numa caixa em Paúba? Foi-se em alguma mudança? No escritório do Dinho, junto com os anuários? Duvi-de-o-dó.

Então que o cara me mandou o vídeo, são 15 minutos do pré-corrida do GP do Japão de 1991. Ali podia ser decidido o título. Eram tempos em que a F1 empolgava no Brasil. Piquet era tricampeão, Senna era bi. Buscava a terceira taça e era o grande favorito contra um Mansell errático naquela temporada de sintonia fina do carro de outro planeta. Então que a Globo resolveu entrar 15 minutos antes, com material gravado por você, pela Neide Duarte e pelo Marcos Uchoa, e ancorado pelo Léo Batista.

Acabei de ver e não vou ver de novo para listar quem foi ouvido por vocês nesse pré-jogo, como a gente chama genericamente essas coisas em TV, mesmo sendo uma corrida, e não um jogo. Por isso posso estar esquecendo alguém. Mas certamente passaram pelos microfones globais (sem o cubinho) Prost, Schumacher, Gugelmin, Salinha, Wilsinho, Nakajima e Piquet. Um cara da Goodyear, também. Você, naqueles tempos, era comentarista e repórter. Fazia o “Sinal Verde”, que a gente, do outro lado da tela, ficava esperando ansiosamente nas noites de sábado para sonhar com aquele mundo de glamour, velocidade, riqueza e heroísmo. Viajei para todos os países da F1 com você pelo “Sinal Verde” antes de fazer isso de verdade, algum tempo depois. Com você também.

E aí lá foi você entrevistar o Piquet, que estava terminando seu contrato com a Benetton e corria o risco de não ter carro no ano seguinte. Se fosse para continuar, você informou, seria na Ferrari. “Coisa grande”, como definiu o Nelson.

Vocês dois são amigos, sempre foram. E são dois sacanas. Todo mundo sabe que o Piquet é sacana. Mas você, com essa carinha de santo, acha que engana quem? Quem não te conhece que te compre, amigão!

Pois lá vai você entrevistar o Piquet, o assunto é sério e importante, trata-se de um tricampeão às portas da aposentadoria, temas como esse, hoje, são cercados de solenidade e dramaticidade. Fecha a câmera nos olhos marejados do piloto, volta para o apresentador com ar contrito e consternado. Puta babaquice. Pilotos escondem os fatos, repórteres muitas vezes omitem o que sabem para não ficarem mal com os pilotos, o jornalismo, hoje, é uma babaquice sem tamanho. Como se essas coisas, um piloto mudar de equipe, mudassem o rumo do mundo.

Voltemos a 1991, aí você fala abertamente das opções e tal, e o Piquet diz que não pode falar nada, “porque pode dar pra trás”. E aí você o interrompe e fala: “Quando a gente tem um receio assim de dar pra trás, é porque a coisa é grande…”.

Vocês combinaram, certeza. Nem vem, vocês dois não valem um centavo. Vamos ver se passa pela edição, devem ter comentado, devem até ter apostado alguma coisa, devem ter rachado o bico quando desligaram a câmera, quando tem medo de dar pra trás é porque a coisa é grande, imagine dizer isso na Globo hoje! Primeiro que não iria para o ar. Segundo que você iria para a rua. Terceiro que piloto nenhum iria topar a brincadeira.

É, Regi, os tempos são outros e hoje vivemos de macarrãozinho, salvar pneus, carro de segurança, RBR, STR, dispositivo de recuperação de energia, olha ali o carrinho vermelho, fulano é o do carrinho cinza, tratam o telespectador como se fosse um débil mental, vocês têm de se controlar para falar qualquer coisa, imagine chegar no Massa e dizer para ele que se está com medo de dar pra trás é porque a coisa é grande. Coitado, o Felipe é de boa, iria dar risada, até, mas vocês nem mandariam as imagens para o Brasil, seria apenas uma piadinha interna e ninguém saberia que ela foi feita, como tantas.

Mas em 1991 você e o Piquet se divertiram à beça, acho que todos nos divertíamos mais. Quando será que ficou tudo chato?

Bem, amigo, boa cobertura aí em Abu Dhabi. Vi as fotos da janela do seu quarto, debruçado sobre essa pista esplendorosa, feérica, fantástica e… de mentira.

Tenho certeza, Regi, que você trocaria todo esse luxo aí por aquela Suzuka bagunçada de 1991, pelos jantares com nossos amigos brasileiros de olhinhos puxados e/ou amendoados que nos buscavam no aeroporto, nos levavam para todos os cantos, por aqueles quartinhos apertados dos hotéis de Yokkaichi ou Tsu, para terminarmos todos encharcados de saquê no karaokê no domingo à noite antes de pegar o trem para Nagoia, depois atravessar a estação do shinkansen carregando malas e mochilas como loucos por aqueles espaços intermináveis tentando decifrar os bilhetes, todos numa ressaca brava de dar dó, para chegar a Narita, depois a Los Angeles, depois ao Galeão, depois a Cumbica.

Nos divertíamos, Regi, porque aquilo era de verdade.

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Frank – 25/10/2013

Devo chamá-lo de “Sir”?

Não, vamos deixar essas formalidades de lado.

Muito bem. Já estamos sabendo do Felipe e tal. Sua história com pilotos brasileiros é muito rica. Em tudo. Sucesso, tragédia, mediocridade. Por mediocridade, não me entenda mal, nem ofensivamente. Também não sei se escolhi a palavra certa. Uso mediocridade no sentido de nem bom, nem mau. Na média. Opaco, quase irrelevante.

Com Piquet, aquele final dos loucos anos 80 foi riquíssimo. Teve sucesso e tragédia, também. Era Nelson que estava atrás do seu carro quando aconteceu aquele acidente que mudou sua vida, na volta de Paul Ricard. Foi em 86, primeiro ano dele na equipe. Você é um bravo. Não é qualquer um que consegue tudo que você conseguiu na vida depois de algo tão grave e doloroso.

Piquet não foi seu primeiro brasileiro. Você alugou um carro a Luiz Pereira Bueno uma vez. E teve o Moco. Seu time ainda não se chamava Williams. Você era um garagista, começo dos anos 70. Menos de dez anos depois, já como Williams, ganharia o primeiro título com o gorducho Alan Jones e a grana dos árabes. Um desbravador, você. Foi buscar os petrodólares para dar o salto gigantesco que deu. Até a empresa da família Bin Laden patrocinou seu time. Um desbravador.

E depois veio o segundo, com Keke, e seu time virou grande de vez. Enorme, eu diria. Um pouco mais tarde, a terceira taça, com Piquet. Seu primeiro brasileiro campeão, aí sim. Que campeonato aquele de 87, não? No ano anterior, vocês perderam porque eram doidos, alimentaram uma disputa interna que só ajudou Prost. O francês adorou. Prato cheio para um cara como ele ver dois monstros como Piquet e Mansell se comendo no box vizinho. Ele deve ter dado muita risada.

Nos anos 90, porém, não teve pra ninguém. Campeão em 92 com Mansell, em 93 com Prost, em 96 com Hill, em 97 com Villeneuve, a parceria com a Renault que era quase imbatível, o desenvolvimento tecnológico assustador, aquela suspensão ativa era de matar neguinho do coração, o investimento pesado em engenharia pura, depois a parceria promissora com a BMW, mas aí, em algum momento, a coisa desandou. Talvez porque você não tenha querido vender a equipe aos alemães, talvez por acreditar que pessoas, mais do que dinheiro, seriam o suficiente para seguir grande.

Bem, Frank, grande sua equipe é. Empresa forte, sólida, respeitada. Mas acabaram os resultados. Neste século, Frank, sua equipe ganhou só 11 corridas. Onze. Só neste ano, o Vettel ganhou nove. Aí é osso. Ossada de dinossauro, como diz uma amiga minha da comunidade. Não peça para traduzir, vai ser difícil compreender. Vamos mudar: aí é dose pra leão. E se não fosse aquela zebra de Barcelona no ano passado, você estaria sem saber o que é uma vitória desde 2004. Quase dez anos, Frank. Não combina com você, nem com sua gente.

María – 11/10/2013

Não te conheci, e você nunca vai ler estas linhas.

Não tem importância. Vivemos escrevendo cartas que não serão lidas, faço longas cartas pra ninguém, diz uma canção daqui.

Carros. Numa outra canção da mesma cantora, a cantora canta: eu ando pelo mundo, e os automóveis correm, para quê?

Os automóveis correm para quê, María?

Correm porque somos crianças que não sabem as respostas, María. Somos crianças a vida toda, passamos a vida toda fazendo perguntas, e ninguém nos dá respostas.

Então, corremos. Corremos da vida, para que ela não nos alcance. Cheios de medos. E quanto mais rápido, mais difícil de a vida nos alcançar e nos cobrar respostas.

É uma metáfora, María. Meio idiota, talvez, penso nessas coisas enquanto escrevo.

Os automóveis correm para quê?

Eu também corro, não sei se você sabe. Não, é claro que você não sabe, não nos conhecemos. Mas pode ser que isso nos aproxime, de alguma forma. Eu também corro. De carro e da vida. Não leve muito a sério o que estou dizendo, de correr de carro. Corro de vez em quando, só. Você corria sempre, sua vida foi sempre essa, até aquele dia lá, no ano passado.

Correr da vida é o que todos fazemos, mas quando é preciso de um carro para correr dela, o carro mais rápido, eu acho que é cada vez mais difícil, María. Você estava correndo sozinha contra ninguém. Então a vida te alcançou e te tirou pedaços. Então você ficou a pé. Então você teve de parar de correr.

E correr da vida a pé não é para todo mundo, María. Não quando a gente passou o tempo todo dentro de um carro, fugindo dela, olhando só para a frente, esperando a hora de receber uma bandeirada para olhar para trás e, então, dar uma banana para a vida. Até a próxima, vida. Você não me alcançou hoje. Tente de novo. Te aviso o dia e a hora. Tente de novo.

E é para isso que os automóveis correm, para que a gente fuja dessa vida que insiste em nos perseguir despejando perguntas que a gente não sabe responder. A gente tem medo da vida, María. Um carro é um bom meio para escapar dela. Somos crianças, lembra? O mundo é muito assustador. Por favor, nos deem alguma coisa que ande bem rápido para que nada nos alcance.

As pessoas acham perigoso correr de carro. Não é. Não mesmo. Perigoso é ficar parado, porque a vida chega e nos engole, nos enche de dúvidas, angústias, e a gente fica preso e paralisado. Isso sim, é perigoso. Perigoso é fugir da vida a pé. Não é para todo mundo. Admiro quem consegue.

Eu também corro, María, não sei se você sabe. Não, claro que não sabe, já falei isso. Mas eu sei o que é correr da vida, sei como é quando a gente coloca uma balaclava, um macacão, uma sapatilha, um par de luvas, um capacete, e fecha a viseira para o mundo. Sei como é. Sei como é estar só dentro de um carro, amarrado, parte dele. Me sinto protegido de tudo que está lá fora. Eu e o carro. No meu caso, María, não sei se você sabe, não, você não sabe, um carro velho e lento. Eu tinha um amigo, María, que implicava com ele. Esse amigo me escrevia muito, e sempre terminava dizendo: a luta kontinua, kamarada, continue acelerando, acelere sempre.

Aceleramos, María, eu e o carro, na maior velocidade possível, para que a vida não nos alcance e nos deixe em paz. Até o dia em que alcança.

Eu acho que hoje você ficou em paz, María.