25 de agosto de 1991 – 24/08/2001

Está fazendo dez anos. Eu já era quase um veterano em cobertura de Fórmula 1, chegava ao meu 17º GP. Spa-Francorchamps, Bélgica. Fui via Paris, porque iria ficar na Europa uns 40 dias, até a corrida de Barcelona. Fiz o leasing de um Renault 19 a diesel e para esse tipo de aluguel o ponto de partida tinha de ser Paris. Da capital francesa até Spa são mais ou menos 400 km, um passeio bonito e tranquilo.
Naquela época, a Philip Morris reservava para os jornalistas quase todos os chalés de Val d”Arimont, um hotel em Malmedy (veja no final do texto quem são os que aparecem na foto), perto do circuito. Tempos de Ayrton Senna, sabe como é, nós brasileiros éramos bajulados por todo mundo. Pagávamos, claro, mas muito menos do que se fizéssemos a reserva diretamente com o hotel.

Ninguém ligava para a Jordan. Senna fazia um belo campeonato, mas Mansell se aproximava perigosamente e esse era o eixo da cobertura jornalística em 1991. A Jordan nada mais era que uma curiosidade, num ano cheio de episódios pitorescos. Uma mulher já havia corrido pela Brabham, Giovanna Amati, sendo substituída por Damon Hill, filho de peixe, um cara já passado dos 30 anos em quem ninguém apostaria um tostão.

Tinha também a Lambo, uma equipe que quase nunca passava da pré-classificação, havia a Arrows, que começou a temporada com motor Porsche e trocou depois para Ford, algumas equipes como Coloni, Larrousse, Dallara e AGS, que divertiam muito aqueles que chegavam à pista cedinho na sexta-feira para ver de perto a degola dos carros que não participariam nem do treino para a formação do grid.

A F-1 era, enfim, repleta de exotismos. Nada menos do que 44 pilotos participaram de alguma forma daquele Mundial, alguns deles, como Moreno, por três equipes diferentes – Jordan, Minardi e Benetton. E em meio a tantas excentricidades, Michael Schumacher era apenas mais uma. Iria correr no lugar de Bertrand Gachot, um belga que estava na cadeia na Inglaterra depois de se envolver numa briga de trânsito com um taxista em Londres.

Pouca gente conhecia Schumacher. Mesmo os jornalistas alemães tinham poucas informações sobre o rapaz. Sabia-se que ele tinha feito muito sucesso no kart, como tantos outros, e que havia conquistado o título alemão de F-3. Na equipe da Mercedes no Mundial de Marcas, era menos badalado que seus companheiros Frentzen e Wendlinger.

Como a disputa Senna x Mansell era o que realmente interessava, poucas linhas foram dedicadas àquele Schumacher nos jornais do mundo inteiro, e a maioria dos repórteres acabou optando pelo lado engraçado da história, a tradução aproximada de seu nome, que quer dizer, grosso modo, “sapateiro”, ou “fazedor de sapatos”.
Seria apenas mais um, ainda mais com um nome desses. A F-1 já tinha ídolos em número suficiente para imaginar que um sujeito obscuro que estava tapando buraco numa equipe estreante pudesse vir a ser alguma coisa. Em 1991 o time de cima da categoria tinha Senna, Berger, Mansell, Patrese, Piquet, Prost e Alesi, além de alguns jovens bastante promissores, como Hakkinen, Herbert e Lehto, e outros já consolidados como Brundle, Alboreto, Johansson, Capelli, Gugelmin, Boutsen e De Cesaris.

Não, não seria aquele alemão a vingar, a Alemanha não tinha tradição de formar bons pilotos, o país da F-1 era outro, o Brasil, e o cara não merecia muita atenção mesmo. No fundo, a história de Gachot em cana era bem mais interessante que a do sapateiro. Sua prisão levou os pilotos a usarem camisetas pedindo sua liberdade e até o asfalto de Spa foi pichado pelos torcedores belgas.

O alemão ficou em sétimo no grid, arrancando alguns sorrisinhos aqui e ali, olha lá, até que o sapateiro é bom, mas todos esquecemos dele logo na primeira volta, já que seu carro quebrou. E Schumacher só foi ser lembrado de novo em Monza, de surpresa, quando a Benetton comunicou que estava mandando Moreno embora. E mais uma vez o alemão foi coadjuvante num caso que tinha uma vítima clara, o brasileiro coitadinho demitido em troca dos dólares da Mercedes.

Eram os dólares da Mercedes, e não Schumacher, que estavam tomando o lugar de Moreno na Benetton, na avaliação precipitada e evidentemente equivocada daqueles que acompanharam o caso e o levaram ao público pelos jornais e microfones.

Schumacher não precisou de muito tempo para abrir os olhos dos incautos, porém. Terminou o GP da Itália em quinto, à frente do novo companheiro Nelson Piquet, tricampeão, um dos grandes de todos os tempos. Faria mais um sexto em Portugal e outro na Espanha e no ano seguinte venceria sua primeira corrida.

Dez anos se passaram. Aliás, faz dez anos da estreia amanhã, 25 de agosto. Não conheço ninguém que em uma década apenas tenha conseguido tanta coisa em sua profissão. Entrevistei Schumacher naquele ano em Portugal, no motorhome da Benetton, com hora marcada. Notei uma certa timidez no rapaz mas, ao mesmo tempo, grande segurança no falar, no olhar nos olhos do perguntador. A timidez, talvez, pelo fato de eu ser brasileiro, do país de Senna, a quem ele confessou idolatrar. Lembro de ter perguntado o que ele esperava da F-1, a fama ou o dinheiro, algo assim. Ele me disse que nem uma coisa, nem outra. Apenas vencer.
Sabia do que estava falando, o sapateiro.

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