A F-1 não é a Indy – 02/02/2000

Nesta semana, os três principais eventos de esporte a motor do Brasil ganharam espaço na mídia por conta da incompetência crônica deste país em organizar o que quer que seja. As duas corridas do Rio, de Indy e de Motovelocidade, e a de São Paulo, de F-1, frequentaram as páginas dos jornais ao lado de expressões como corre risco, está ameaçada e foi cancelada.

Primeiro, os fatos. O GP de F-1 não corre risco nenhum, em que pese a insanidade de algumas licitações abertas pelo último governo municipal. Pitta queria, por exemplo, iluminar a Reta Oposta. Algo equivalente a enxugar a Lagoa Rodrgio de Freitas, totalmente inútil, ideia desprovida de sentido, uma ofensa ao bom senso.

Quatro licitações desse naipe foram canceladas, e o resultado é que as obras necessárias para deixar o autódromo em condições de fazer a corrida terão de ser feitas a toque de caixa. É sempre assim, mas no fim a corrida sai.

Agora, o Rio. A prova de moto foi para o espaço. A de Indy realmente pode não acontecer, porque os promotores da Rio 200 insistem em depender de dinheiro público para fazer um evento privado. Que se danem. Para piorar, ontem barraram o inspetor de segurança da FIA em Jacarepaguá. Estão querendo mesmo perder a corrida. Azar deles.

Por mais que pareça uma afirmação preconceituosa, a verdade é que a F-1 não corre risco como a Indy simplesmente porque a F-1 não é a Indy. O que acontece no Rio não pode ser comparado à situação de São Paulo. Para fazer uma corrida em qualquer país, tanto a Cart, que gerencia a Indy, quanto a FOM de Bernie Ecclestone, dona da F-1, exigem garantias financeiras. Querem lucrar com o evento, o que parece aceitável.

Ocorre que a F-1, com 30 anos de Brasil, se sustenta sem precisar de dinheiro público, pelo menos no que diz respeito à remuneração dos promotores da categoria – no caso a FOM, Formula One Management. A receita vem da venda de ingressos, das placas de publicidade, da venda de hospitality centers.

A F-1 usa, sim, dinheiro público para adequar o autódromo, com a boa desculpa de que ele pertence à cidade, e não aos organizadores da corrida. Essa é outra discussão. Pessoalmente, acho que a International Promotions, que promove o GP do Brasil, deveria entrar com sua parte. Mas a empresa argumenta que não tem culpa se o autódromo fica abandonado o ano inteiro, e não se pode tirar sua razão.

Se a Prefeitura cuidasse de seu patrimônio, as obras caríssimas que são necessárias todos os anos talvez não precisassem ser realizadas. O problema é que, entra ano, sai ano, tudo tem de ser reconstruído em Interlagos. E a culpa é também de todos os promotores de categorias nacionais, que tratam o autódromo como a casa da mãe Joana, quebram tudo, sujam, arregaçam, não pagam nada e ficam choramingando que o automobilismo nacional não tem apoio. Vejam as Mil Milhas: a prova foi disputada com o mato a mais de um metro de altura ao redor da pista. Custava alguma coisa para os organizadores, pelo menos, aparar o matagal? No fundo, o automobilismo nacional, brincadeira de meia-dúzia de riquinhos, merece a porcaria que é Interlagos. A Prefeitura deveria multar todo mundo, pilotos, equipes, CBA, Fasp, automóveis clube, a cada prova, para que essa gente aprendesse a cuidar do que é coletivo.

O caso do Rio é diferente. Quando a Indy chegou ao Brasil, em 1996, não havia verbas de patrocinadores para pagar o que a Cart exigia. Para garantir o evento, a Prefeitura entrou com dinheiro. Foi feito um contrato e o município acabou se transformando em copromotor da prova.

Se os homens da Indy no Brasil, Emerson Fittipaldi à frente, tivessem um mínimo de discernimento, não teriam se acomodado com a grana fácil do contribuinte e sairiam atrás de financiamento privado para seu evento logo depois da primeira corrida. Mas não fizeram isso, e todo ano é a mesma coisa: falta dinheiro, a Prefeitura paga. Agora, César Maia não quer pagar e os promotores não sabem de onde tirar recursos. Por isso essa corrida não deve acontecer. Em resumo: no Brasil, a F-1 ainda se garante, apesar do Maluf, do Pitta e dos corredores brasileiros. A Indy, não.

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