A hora de parar – 01/12/2000

Um dia antes do anúncio oficial de Pedro Paulo Diniz, sobre o fim de sua carreira de piloto e início de vida como cartola, dirigente, empresário, o que queiram, escrevi algumas linhas para a coluna semanal que mantenho no Lance!. Era uma reflexão, ou tentativa de, sobre a decisão de parar de correr. Sobre os motivos que levam um jovem de 30 anos a abrir mão da emoção da velocidade, da badalação das corridas, do sonho de qualquer garoto que um dia já acelerou algo com quatro rodas.

Alguns trechos vou reproduzir na íntegra (autoplágio, se chama isso), entre aspas. Eu começava dizendo que carro de Fórmula 1 não se compra em supermercado, porque se fosse assim talvez Pedro continuasse a correr mais um tempo. Afinal, seu pai é dono do maior do Brasil e não seria difícil encontrar em suas gôndolas uma máquina capaz de andar na frente. Mas carros de F-1 não são expostos ao lado de repolhos e escarolas, e a partir disso pode-se compreender a aposentadoria do piloto brasileiro.

Continuando minha cópia:
Diniz, em que pese o currículo despido de vitórias em todas as categorias pelas quais passou, encontrou na F-1 seu habitat. Não como vencedor, mas como produto do meio que a categoria se tornou. Em seus seis anos entre os melhores pilotos do mundo, não brilhou. Mas nunca foi um corpo estranho, um alienígena. Com dignidade, Pedro chegou a 98 GPs sem máculas. Fez lá suas besteiras, como todos fazem, mas também conseguiu ser mais rápido que alguns bons companheiros de equipe, como Damon Hill e Jean Alesi, em uma corrida ou outra. Sério e profissional, Diniz sabia e sabe de suas limitações. Assim como tem plena consciência de que na F-1 não existem milagres.

Por mais dinheiro que tenha, Pedro sabe igualmente que nunca terá uma chance numa equipe de ponta. Portanto, jamais terá a chance de realizar o sonho de qualquer piloto: ganhar. Ocorre que muitos alimentam tais ilusões, de que um dia chegarão lá, mesmo sabendo que nunca conseguirão. Alguém imagina, por exemplo, Gené vencendo uma corrida um dia? Ou Verstappen? Apesar disso, todos eles se comportam como futuros e potenciais campeões. Pedro parece ter perdido essa ilusão, ou talvez nunca a tenha tido, o que reveste sua aposentadoria de uma honestidade rara na F-1: a admissão do papel de coadjuvante – que, no fundo, é dos mais aborrecidos.

Em pilotos como Diniz, compreende-se a insistência na carreira pelo prazer de correr e por tudo que cerca a F-1: o charme, o glamour, as viagens, as lindas mulheres, a badalação. Por outro lado, arriscar o pescoço apenas para estar lá nem sempre é decisão das mais corretas. Pedro viu a morte de perto algumas vezes nos últimos seis anos, como no incêndio de sua Ligier na Argentina em 96 e na capotagem com a Sauber no ano passado em Nürburgring, um acidente que arrancou o santantônio de seu carro e só não foi fatal por muita sorte.

Diz um ditado (sou péssimo em ditados, acho que é isso) que mais importante do que definir um rumo para a vida é saber a hora de mudá-lo. Talvez tenha chegado a hora para Diniz. E se ele conseguir tocar uma equipe como seu pai faz com supermercados, Alain Prost pode dormir tranquilo.

Resumindo: ao pendurar seu capacete, Pedro mostrou ao mundo da F-1 que correr sem a mais remota chance de ganhar deve ser um saco.

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