Aquarela do Brasil – 31/03/2000

Não é má vontade minha. Mas não pode passar em branco tudo que aconteceu em Interlagos na semana passada. Neste ano, mais ainda. Teve cachorro, placa caindo sobre a pista, asa voando por causa do asfalto, vexame atrás de vexame. Aquelas coisas que só acontecem aqui. Aí o piloto brasileiro abandona a prova, e imediatamente surgem acusações de que quebraram o carro do rapaz. Por fim, o vencedor esquece o troféu no autódromo. E lá na Europa chega a notícia de que roubaram o dito cujo.

Tudo que aconteceu em Interlagos é reflexo do Brasil. Incompetência, negligência, dinheiro malgasto. Um bom castigo seria perder a corrida, o que não vai acontecer – o GP dá lucro. Mas seria uma boa lição para pessoas que não levam as coisas a sério, promovem barbaridade em cima de barbaridade.

Outra historinha, boa para ilustrar o que somos. Estive na fábrica da Williams no ano passado. Num canto do saguão de entrada há uma área de exposição de troféus. Taças lindas, de prata, cristal, banhadas a ouro. Grandes, pequenas, delicadas, de todos os tipos – a Williams ganhou 103 GPS na F-1.

Olhei as que estavam expostas, lembrando de algumas corridas, vitórias que presenciei, até me deparar com um trofeuzinho mequetrefe, de plástico cromado, a base cheia de rebarbas, uma plaquinha com um nome gravado às pressas. Nos campeonatos de futebol de botão que eu promovia no meu prédio, o vencedor – em geral eu mesmo – ganhava coisa melhor. De verdade. Li na placa: vencedor do GP do Brasil de 92. Nigel Mansell. Era um desses troféus Piaza, que a gente compra em loja de esportes e não custam mais do que vinte mangos. Ninguém, em 92, se preocupou em mandar fazer uma taça bonita, marcante, algo compatível com a importância que a F-1 tem no mundo. Deu vergonha.

*
E para não dizer que não falei do esporte, algumas conclusões depois de dois GPs. A primeira: Schumacher é disparado o favorito ao título. Está guiando como nunca, enche os olhos. A segunda: a McLaren está lascada se quebrar de novo em Imola. A terceira: Barrichello ainda precisa mostrar serviço se quiser ser tratado realmente como um top driver. Por enquanto, fez o que a maioria dos pilotos faria, tendo uma Ferrari nas mãos – não foi mal, mas não foi bem, com exceção das ultrapassagens sobre Coulthard e Hakkinen, esta um pouco demorada demais. A quarta: o ufanismo que toma conta de todo mundo diante da mera possibilidade de uma vitória brasileira é algo irritante. Mais uma vez, ouço a cada cinco minutos que estão sacaneando Barrichello. E quando tento dizer que não há nenhuma conspiração universal contra o Brasil, que na verdade o Brasil não interessa a ninguém, sou excomungado. Ainda bem que já me acostumei.

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